quinta-feira, 14 de novembro de 2019

nós


A primeira a sair da casa dos pais foi ela. Queria um pouco mais de privacidade. Convidou o namorado, que, pego de surpresa, titubeou. Disse que ficaria com ela nos finais de semana, mas nos outros dias ainda moraria com o pai. Namoravam há quase cinco anos, ele foi o primeiro namorado dela e vice versa.

O projeto dele deu certo por alguns meses. Aos poucos foi ficando mais um dia, outro mais e quando se deu conta, voltava na casa do pai só pra buscar alguma roupa, livro ou vinho que estava precisando. Mais cinco anos se passaram até que num belo e iluminado dia decidiram casar.

O que teria motivado o casal a tomar esta decisão, afinal já moravam juntos, eram felizes e tinham pacto pré nupcial bem assegurado. Sonho de casar de véu e grinalda? Uma festa para família e amigos? Receber a benção divina? Oficializar uma situação de fato para conseguir cidadania italiana? Deixar um caminho preparado para os futuros filhos? Nada, nem ninguém os pressionava.


O motivo não importa. Resolveram casar e pronto. Uma bela decisão, casar não é para os fracos e também não diz respeito aos demais, só aos noivos. Eles devem saber o porquê, e se não souberem, também não importa. Estão felizes, já é o bastante. No entanto, queria dar minha versão filosófica sobre a decisão de casar.

Quando decidiram sair da casa dos pais, ela disse que precisava de privacidade, ele disse que iria morar com a namorada. Ela pagava o aluguel, ele as despesas da casa. Ela fez concurso público, ele foi contratado num emprego.  Ela disse que queria um cachorro, ele disse que se ela cuidasse, limpasse e levasse para passear, tudo bem.  Ela, ele, ela, ele, ela, ele. Aos poucos foram percebendo que a dor dela era dele também, sentiram que o problema dele repercutia nela, a alegria de um contagiava o outro, as contas não estavam mais sendo divididas na ponta do lápis, a sujeira que o cachorro fazia era problema dos dois. Passaram a sentir falta um do outro, mais que isso, tinham necessidade do companheiro.  Descobriram que ele e ela haviam se transformado em nós. Alguns chamam isto de amor, mas nem todos reconhecem.

E o casamento acontece justamente quando ocorre a transformação do “eu sou” em “nós”. Vire a pagina de cabeça para baixo, se não conseguir, vire a cabeça mesmo:


sou
´
     

Não é preciso que a vida vire de cabeça para baixo para isto acontecer. Também não é preciso abrir mão da individualidade. Acredito que o momento certo de casar, ou melhor, acredito que o casamento acontece justamente quando o surgimento do nós se manifesta. Se for com uma semana de namoro, cinco anos morando juntos, depois de uma viagem, cada casal tem o seu tempo. A formalidade de assinar um contrato, fazer uma festa ou receber uma benção é apenas o detalhe.

Casamento são os nós que vão se formando no lugar dos eus. Isto leva tempo, não é fácil e não é para quaisquer dois. Muitos casamentos não tem nós algum. Casar não é ser feliz para sempre, isto é conto de fadas.  Casar é estar junto.  Casar é crescer juntos. Casar é você + eu = Nós. Que os nós se atem para sempre.

8 comentários:

  1. Eu sou tu. Você é eu. Quando parte de tu possue caracteres em conversações com minha parte. Como ser: "luz, raio, estrela e luar. Manhã de sol. Meu iaiá, meu ioio.." Me diga o que você, o quer e como poderá dar certo?

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  2. Verdade, cada casal tem seu tempo, cada um tem seu tempo, bom mesmo é quando nós viram nós! Parabéns Dr Ildo! Bjs

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  3. Seu melhor texto Dr. Ildo. Obrigado por compartilhar

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  4. Nos sempre é melhor que eu. Sempre!

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    1. Sempre melhor nós, o triste é quando acreditamos que somos nós e na real estamos sós. SOS = sós até que cai a ficha de tanta desculpa furada ... Bia

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  5. Quer saber se está pronto para um relacionamento? Inicie as frases com nós ao invés de eu. Nos precisamos, em vez de eu preciso. Nos queremos, em vez de eu quero. Se conseguir, se a frase fizer sentido, você está pronto.

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  6. Eu penso, tu pensas, nós acordamos, nós discordamos, mas sempre juntos.

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