terça-feira, 22 de setembro de 2026

Será que ainda sou eu?






Outro dia, fiquei olhando uma foto minha de criança, tentando reconhecer alguma coisa. Não achei muita. 

E fiquei pensando: será que eu ainda sou ele?

Então lembrei uma história grega antiga.

Teseu, rei de Atenas, derrotou o Minotauro na ilha de Creta e voltou para casa em um barco. Os atenienses guardaram aquela embarcação como uma relíquia.

Só que madeira apodrece. Trocaram uma tábua. Depois outra. E mais outra. Décadas depois, nenhuma das tábuas originais permanecia.

Mas o barco continuava ali. Ainda era o barco de Teseu?

Agora imagine que alguém tivesse guardado todas as tábuas antigas e, com elas, construído outro barco exatamente igual.

Qual seria o verdadeiro?

O que nunca deixou de existir, mesmo tendo trocado todas as suas peças? Ou o que foi reconstruído com a madeira original?

Talvez nenhum dos dois. Talvez os dois.

Foi assim que me senti olhando aquela foto. Eu não tenho mais nenhuma “tábua” daquele menino.

Meu corpo mudou. A voz mudou. Os medos mudaram. Os sonhos mudaram. As certezas também. Algumas pessoas ficaram pelo caminho. E, com elas, também uma versão de mim.

E, mais estranho ainda, nem fui eu quem escolheu a maioria das tábuas que me formaram. Traumas. Opiniões alheias. Expectativas. Acasos. Amores. Perdas. Tudo foi acontecendo sem pedir licença.

E, ainda assim, olho para aquela fotografia e digo, com uma certeza quase absurda: esse sou eu.

Não sei exatamente com que direito digo isso. Só sei que digo.

Talvez porque identidade não esteja na tábua. Nem na célula. Nem naquilo que permanece exatamente igual.

Talvez esteja na linha que costura tudo. Na memória. Nos vínculos. Na continuidade. Não somos feitos da permanência das peças. Somos feitos da história que elas contam juntas.

O barco de Teseu trocou tudo. E, trocando, continuou sendo barco. Eu também estou tentando isso. Trocar sem me perder de vista. O que faz a gente ser quem é não é a permanência das peças, mas a coragem de continuar navegando.

Voltei a olhar para a foto. Ainda não reconheço completamente aquele menino. Mas talvez ele também não me reconhecesse. E, mesmo assim, acho que, se nos encontrássemos, alguma coisa em nós saberia.

Era eu. Ainda sou eu. E talvez eu ainda seja a continuação dele.

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