A farmácia que existe dentro da biblioteca
Um dia um amigo olhou para a minha estante e perguntou: - Você já leu todos estes livros?
Respondi que
não. Ele sorriu com aquela expressão de quem acabou de descobrir um
desperdício.
- Então por
que compra tantos livros?
Fiquei
pensando que ninguém pergunta o mesmo quando vê um armário cheio de remédios. Ninguém
diz: - Você comprou e não tomou todos esses comprimidos? Que desperdício.
Pelo
contrário. Remédios não existem só para resolver o agora. Existem para estar disponíveis quando a vida
exigir.
Uma biblioteca bem abastecida serve para a mesma coisa. Livros também tratam sintomas.
Existe livro
para febre de curiosidade, para hemorragias de saudade, para inflamações do ego,
para noites de insônia, para quando nada faz sentido, para quando o amor chega,
e principalmente, quando vai embora.
Nenhum
médico seria irresponsável a ponto de receitar o mesmo remédio para todas as
doenças. Então por que imaginamos que um único livro possa servir para todas as
fases da vida?
Há quem compre um livro, leia imediatamente e depois o
venda ou doe. Para alguns, um livro é um produto de consumo. Não há nada de
errado nisso.
Mas quem ama
livros tem outro tipo de relação. Não compra papel, compra possibilidades.
Há livros
que chegam cedo demais. A gente abre, não entende quase nada e conclui que são
ruins. Anos depois, por acaso, voltamos à mesma página e descobrimos que o
livro nunca esteve fechado. Quem estava fechado éramos nós.
Por isso
nunca achei importante ler todos os livros que possuo, preciso é que eles
estejam por perto quando precisar deles.
Alguns
remédios passam anos esquecidos no armário até o dia em que salvam uma
madrugada. Com os livros acontece exatamente o mesmo. Uma biblioteca não é uma
coleção de páginas. É uma farmácia para as dores que ainda nem sabemos que
teremos.
A diferença
é que os remédios costumam prolongar a vida.
Os livros,
quando encontram o leitor certo no momento certo, fazem algo ainda mais raro: ensinam
por que vale a pena vivê-la.
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