quinta-feira, 13 de agosto de 2026

A farmácia que existe dentro da biblioteca

 

A farmácia que existe dentro da biblioteca

Um dia um amigo olhou para a minha estante  e perguntou: - Você já leu todos estes livros?

Respondi que não. Ele sorriu com aquela expressão de quem acabou de descobrir um desperdício.

- Então por que compra tantos livros?

Fiquei pensando que ninguém pergunta o mesmo quando vê um armário cheio de remédios. Ninguém diz: - Você comprou e não tomou todos esses comprimidos? Que desperdício.

Pelo contrário. Remédios não existem só para resolver o agora.   Existem para estar disponíveis quando a vida exigir.

Uma biblioteca bem abastecida serve para a mesma coisa. Livros também tratam sintomas.

Existe livro para febre de curiosidade, para hemorragias de saudade, para inflamações do ego, para noites de insônia, para quando nada faz sentido, para quando o amor chega, e principalmente, quando vai embora.

Nenhum médico seria irresponsável a ponto de receitar o mesmo remédio para todas as doenças. Então por que imaginamos que um único livro possa servir para todas as fases da vida?

Há quem compre um livro, leia imediatamente e depois o venda ou doe. Para alguns, um livro é um produto de consumo. Não há nada de errado nisso.

Mas quem ama livros tem outro tipo de relação. Não compra papel, compra possibilidades.

Há livros que chegam cedo demais. A gente abre, não entende quase nada e conclui que são ruins. Anos depois, por acaso, voltamos à mesma página e descobrimos que o livro nunca esteve fechado. Quem estava fechado éramos nós.

Por isso nunca achei importante ler todos os livros que possuo, preciso é que eles estejam por perto quando precisar deles.

Alguns remédios passam anos esquecidos no armário até o dia em que salvam uma madrugada. Com os livros acontece exatamente o mesmo. Uma biblioteca não é uma coleção de páginas. É uma farmácia para as dores que ainda nem sabemos que teremos.

A diferença é que os remédios costumam prolongar a vida.

Os livros, quando encontram o leitor certo no momento certo, fazem algo ainda mais raro: ensinam por que vale a pena vivê-la.

 

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