segunda-feira, 17 de agosto de 2026

A porta que eu tranquei

 

Preciso tirar férias.

Não do trabalho. Nem de escrever. Nem sequer para viajar.

Preciso tirar férias de mim. Do adulto que me tornei.

Não sei exatamente quando aquele menino que eu era desapareceu. Não houve despedida. Ninguém me avisou que aquela seria a última vez que eu brincaria sem olhar o relógio, que faria alguma coisa apenas porque era divertida, que inventaria uma história sem me preocupar se alguém acharia ridícula.

A vida foi cobrando pedágio aos poucos.  Um pouco menos de tempo para brincar. Um pouco mais de rigidez. Um pouco menos de imaginação. Um pouco mais de pressa.

Até que um dia eu tinha tudo aquilo que um adulto deveria ter. Só não sabia onde tinha deixado o menino.

Às vezes penso nele. Não sei se ainda tem os joelhos ralados, se ainda cheira a protetor solar, se ainda ri daquele jeito solto, sem vergonha. Não é um pensamento sobre o passado. É uma dúvida sobre um desaparecimento.  E eu sou o principal suspeito.

Outro dia, na praia com meu neto, construímos um castelo de areia. Havia um vilão que morava dentro de uma concha, uma princesa presa numa poça, uma ponte feita de gravetos, um monstro marinho e uma guerra que precisava ser vencida antes do almoço.

Eu sabia que nada daquilo existia. Mas, por alguns minutos, existiu. E nesse tempo, não fui médico, escritor, pai, avô.  Era só um homem de joelhos na areia, com as mãos sujas, inventando um reino que duraria até a próxima onda. Foi maravilhoso.

Mas então a maré subiu. O castelo começou a desaparecer. Primeiro a ponte, depois o vilão, depois as paredes. Meu neto olhou aquilo e não pareceu triste. Para ele, era só o fim de uma brincadeira, não uma perda.

Eu senti diferente. Sabia que, em alguns minutos, voltaria a ser adulto. Pegaria o celular, olharia o relógio, lembraria dos compromissos.

Foi então que percebi uma coisa, o menino nunca foi embora. Talvez esteja apenas atrás de uma porta que fui fechando devagar, com uma chave feita de vergonha.

Vergonha de cantar alto. De dançar mal.
De fazer uma cabana com lençóis. De parecer ridículo.
De fazer alguma coisa que não serve para absolutamente nada, só para ser feliz.

Quando estávamos indo embora, meu pé bateu em alguma coisa dura, enterrada na areia.

— Vovô, olha! meu neto já estava ajoelhado, cavando com as duas mãos. — Achei um tesouro!

Era só um vidro velho, redondo, sem rótulo, todo arranhado pela areia e pelo sal. Mas ele segurou aquilo como quem segura o mundo.

— É uma lâmpada mágica! Esfrega que sai um gênio! Ele disse.

Eu já ia explicar que era só um vidro qualquer. Em vez disso, esfreguei.

- Saiu, ele perguntou.

- Ainda não. Talvez ele ainda esteja dormindo.

Esfreguei outra vez e então, da fumaça de minha imaginação, surgiu um gênio enorme, de barriga redonda e voz de trovão.

— Três desejos, mortal! — ele disse, cruzando os braços gigantes.

Pensei em pedir saúde. Dinheiro. Mais tempo. Mais alguns anos. Qualquer coisa que um adulto pediria. Então lembrei daquele menino e fiz meu pedido: — Quero um castelo que não seja destruído pela maré.

O gênio ficou em silêncio. Depois sorriu e desapareceu. A lâmpada também.

Meu neto segurou minha mão, apontou para a areia e disse para fazermos outro castelo.

Eu olhei para ele. Olhei para o relógio. Olhei para minhas mãos e comecei a fazer uma torre encantada. Depois outra maior ainda onde morava uma bruxa. E quando dei por mim, estava discutindo com um menino de quatro anos como uma bruxa podia viver em uma torre tão alta.

Meu neto começou a rir. Eu também. E, por alguns minutos, ninguém era adulto. Só havia dois meninos na praia.

Um deles ainda tinha idade para ser criança. O outro tinha levado quase setenta anos para voltar.

A maré continuava a subir.  Desta vez não me importei.

 

 

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