Preciso tirar férias.
Não do trabalho. Nem
de escrever. Nem sequer para viajar.
Preciso tirar férias
de mim. Do adulto que me tornei.
Não sei exatamente
quando aquele menino que eu era desapareceu. Não houve despedida. Ninguém me avisou
que aquela seria a última vez que eu brincaria sem olhar o relógio, que faria
alguma coisa apenas porque era divertida, que inventaria uma história sem me
preocupar se alguém acharia ridícula.
A vida foi cobrando
pedágio aos poucos. Um pouco menos de
tempo para brincar. Um pouco mais de rigidez. Um pouco menos de imaginação. Um
pouco mais de pressa.
Até que um dia eu tinha tudo aquilo que um adulto deveria ter. Só não sabia onde tinha deixado o menino.
Às vezes penso nele.
Não sei se ainda tem os joelhos ralados, se ainda cheira a protetor solar, se
ainda ri daquele jeito solto, sem vergonha. Não é um pensamento sobre o
passado. É uma dúvida sobre um desaparecimento.
E eu sou o principal suspeito.
Outro dia, na praia
com meu neto, construímos um castelo de areia. Havia um vilão que morava dentro
de uma concha, uma princesa presa numa poça, uma ponte feita de gravetos, um
monstro marinho e uma guerra que precisava ser vencida antes do almoço.
Eu sabia que nada
daquilo existia. Mas, por alguns minutos, existiu. E nesse tempo, não fui
médico, escritor, pai, avô. Era só um
homem de joelhos na areia, com as mãos sujas, inventando um reino que duraria
até a próxima onda. Foi maravilhoso.
Mas
então a maré subiu. O castelo começou a desaparecer. Primeiro a ponte, depois o
vilão, depois as paredes. Meu neto olhou aquilo e não pareceu triste. Para ele,
era só o fim de uma brincadeira, não uma perda.
Eu
senti diferente. Sabia que, em alguns minutos, voltaria a ser adulto. Pegaria o
celular, olharia o relógio, lembraria dos compromissos.
Foi
então que percebi uma coisa, o menino nunca foi embora. Talvez esteja apenas
atrás de uma porta que fui fechando devagar, com uma chave feita de vergonha.
Vergonha de cantar
alto. De dançar mal.
De fazer uma cabana com lençóis. De parecer ridículo.
De fazer alguma coisa que não serve para absolutamente nada, só para ser feliz.
Quando
estávamos indo embora, meu pé bateu em alguma coisa dura, enterrada na areia.
—
Vovô, olha! meu neto já estava ajoelhado, cavando com as duas mãos. — Achei um
tesouro!
Era
só um vidro velho, redondo, sem rótulo, todo arranhado pela areia e pelo sal.
Mas ele segurou aquilo como quem segura o mundo.
—
É uma lâmpada mágica! Esfrega que sai um gênio! Ele disse.
Eu
já ia explicar que era só um vidro qualquer. Em vez disso, esfreguei.
-
Saiu, ele perguntou.
-
Ainda não. Talvez ele ainda esteja dormindo.
Esfreguei
outra vez e então, da fumaça de minha imaginação, surgiu um gênio enorme, de
barriga redonda e voz de trovão.
—
Três desejos, mortal! — ele disse, cruzando os braços gigantes.
Pensei em pedir saúde.
Dinheiro. Mais tempo. Mais alguns anos. Qualquer coisa que um adulto pediria. Então
lembrei daquele menino e fiz meu pedido: — Quero um castelo que não seja
destruído pela maré.
O gênio ficou em
silêncio. Depois sorriu e desapareceu. A lâmpada também.
Meu neto segurou minha
mão, apontou para a areia e disse para fazermos outro castelo.
Eu olhei para ele.
Olhei para o relógio. Olhei para minhas mãos e comecei a fazer uma torre
encantada. Depois outra maior ainda onde morava uma bruxa. E quando dei por
mim, estava discutindo com um menino de quatro anos como uma bruxa podia viver
em uma torre tão alta.
Meu neto começou a
rir. Eu também. E, por alguns minutos, ninguém era adulto. Só havia dois
meninos na praia.
Um deles ainda tinha
idade para ser criança. O outro tinha levado quase setenta anos para voltar.
A maré continuava a
subir. Desta vez não me importei.
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