A primeira bicicleta que entrou em
nossa casa era muito mais do que ferro, pneus e guidão. Era liberdade, o
primeiro pedaço de mundo que eu ia percorrer sozinho.
Não lembro a marca. Nem a cor. Mas
lembro exatamente de quem a segurava enquanto eu aprendia a me equilibrar
naquelas duas rodas: meu pai.
Anos passaram. Meu pai envelheceu.
Depois adoeceu — uma fibrose que foi levando o fôlego dele devagar, em etapas
silenciosas.
Até que um dia o fisioterapeuta pediu uma bicicleta. Não para passear. Não para sentir o vento no rosto. Uma bicicleta ergométrica, dessas que a gente pedala sem sair do lugar.
Achei estranho como a vida, às
vezes, escolhe metáforas cruéis.
Meu irmão se ofereceu para comprar e
voltou com a melhor que encontrou. Enorme, cheia de regulagens, visor
eletrônico, programas de exercício. Sofisticada demais para alguém que já
lutava apenas para conseguir respirar.
Meu pai sempre fez questão de pagar
todas as despesas da própria doença. Remédios, oxigênio, cuidadores. Tudo.
Dias depois, chamou meu irmão.
Queria saber quanto havia custado a bicicleta. Ia pegar o talão de cheques. Era
o jeito dele de continuar sendo pai.
Nós
nos entreolhamos. Meu irmão respondeu antes que eu dissesse qualquer coisa.
— Quem comprou a minha primeira bicicleta? Agora foi a minha vez de comprar a
sua.
Meu pai baixou os olhos. Pela
primeira vez, não insistiu em pagar. Apenas passou a mão sobre o guidão, como
quem reconhece um velho amigo. Acho que naquele momento ele também se lembrou
da nossa primeira bicicleta.
Ali, a bicicleta deixou de ser um
aparelho de fisioterapia. Virou um círculo perfeito. A roda que meu pai
colocara para girar na infância do filho tinha completado uma volta inteira.
Meu pai nunca mais voltou a andar de
bicicleta de verdade. Mas algumas viagens não precisam de estradas. Basta uma
lembrança. Basta um filho. Basta uma frase capaz de dar a volta em uma vida
inteira.
Não era uma bicicleta que meu irmão
estava devolvendo ao meu pai. Era uma dívida de amor nunca cobrada. Pais nunca fazem empréstimos aos
filhos. Fazem investimentos. E passam a vida inteira esperando que um dia o
amor volte para casa.
Essas histórias sempre me emocionam.
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