A primeira bicicleta que entrou em
nossa casa era muito mais do que ferro, pneus e guidão. Era liberdade, o
primeiro pedaço de mundo que eu ia percorrer sozinho.
Não lembro a marca. Nem a cor. Mas
lembro exatamente de quem a segurava enquanto eu aprendia a me equilibrar
naquelas duas rodas: meu pai.
Anos passaram. Meu pai envelheceu.
Depois adoeceu — uma fibrose que foi levando o fôlego dele devagar, em etapas
silenciosas.
Até que um dia o fisioterapeuta pediu uma bicicleta. Não para passear. Não para sentir o vento no rosto. Uma bicicleta ergométrica, dessas que a gente pedala sem sair do lugar.