Existe um detalhe
sobre a morte que quase ninguém percebe.
Sozinha, ela não acontece.
Precisa de testemunhas. É preciso que alguém olhe para um corpo imóvel, chame
um nome que já não responde, procure um pulso e, finalmente, diga: "Acabou."
Quem morre nunca sabe que morreu. São sempre os outros que descobrem.
Mas é exatamente nesse
instante que acontece uma transformação extraordinária.
Pela última vez,
aquela pessoa existe inteira. Segundos depois ela se divide na risada de um
neto, numa receita, num jeito de cruzar os braços, numa fotografia esquecida na
gaveta, no perfume que ainda continua pelo quarto, numa música, num conselho,
num silêncio.
Ninguém fica com a
pessoa inteira. Cada testemunha leva apenas um fragmento.
Esse parece ser o
verdadeiro trabalho da morte. Destruir o corpo, mas não apagar a memória.
Espalhá-la. Enquanto estamos vivos, moramos em um único corpo. Depois da morte,
podemos morar em centenas.
É por isso que os
sonhos são tão estranhos e às vezes, melhores que o sono. Porque o sono apenas
interrompe o dia e descansa o corpo.
O sonho devolve
pessoas. Devolve possibilidades.
Durante um sonho,
nunca pensamos: "Ele está morto."
Enquanto sonhamos,
aquela pessoa está completamente viva.
Ela conversa, sorri,
abraça, faz perguntas, ri das mesmas piadas. E nós nunca estranhamos sua
presença. Porque dentro do sonho não existe luto. Existe apenas convivência.
Sonhar é visitar o
lugar onde os mortos agora moram. Não um céu distante, mas a parte de nós onde
eles continuam vivos.
E talvez exista ainda
uma última ironia.
Passamos a vida
inteira tentando descobrir quem somos, mas ninguém conhece uma pessoa por
completo, nem ela mesma.
Só depois da morte
nossa verdadeira biografia começa a ser escrita. Não em um livro. Mas capítulo
por capítulo, dentro de cada testemunha.
No fim, talvez ninguém
desapareça de uma vez.
Cada pessoa continua
existindo em pequenas parcelas, espalhada pelas vidas que tocou.
E talvez a eternidade
seja exatamente isso.
Não um lugar para onde
vamos. Mas as pessoas dentro das quais continuamos morando.
Talvez a verdadeira
medida de uma vida não seja quantos anos ela durou, mas em quantas pessoas ela
continuou depois que terminou.
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