domingo, 18 de junho de 2023

Pessoas & Cidades


Como se conhece uma cidade? Existem vários métodos. Alguns turistas preferem aquelas excursões onde visitam cinco países em dez dias. Entram em um ônibus confortável com ar refrigerado, guia local, cafezinho a bordo e fazem um city tour de três horas. Tiram fotos, selfies, compram lembrancinhas nos principais pontos turísticos e postam em suas redes sociais.

Outros optam por permanecer mais tempo na cidade, visitam parques, museus, restaurantes, conversam com pessoas. Dependendo da duração da estadia, aprendem a se locomover de metrô ou ônibus, fazem compras em lugares mais baratos,  alimentam-se em restaurantes não turísticos, não erram tantos caminhos e até mesmo formam amizades genuínas com cidadãos locais. Começam a ter intimidade com a cidade, salvando-se do isolamento dos forasteiros.

quarta-feira, 24 de maio de 2023

Só por hoje e Para sempre


Era uma vez uma cidade imaginária, onde vivia um casal imaginário.    Amavam-se, eram felizes e tiveram filhos gêmeos. Dois meninos idênticos. Receberam nomes estranhos para a época. Um chamava-se “Só por hoje”, o outro “Para Sempre”. “Só por hoje” era um pouquinho mais velho, nascera minutos antes.

Tiveram uma infância relativamente normal, repleta de carinho, amor e histórias infantis. Deliciavam-se escutando o conto da cigarra e da formiga, pedindo para a mãe repetir até cansar.

Trata-se de uma fábula comparando a postura dos dois animais em relação ao futuro. Durante o verão, a cigarra queria aproveitar a vida e passava os dias cantando, enquanto a formiga trabalhava sem parar, reunindo alimentos para sobreviver no inverno. Quando chegam os dias de frio e chuva, a cigarra esfomeada não tem o que comer e recorre à formiga para partilhar comida.

quarta-feira, 10 de maio de 2023

Expectativas causam lágrimas

 

Não me importa sua idade, seu peso, sua formação acadêmica, sua beleza, sua profissão.

Não preciso de sua conta bancária, seus títulos, sua cultura, sua casa, seu carro.

Não quero saber de seu passado, suas ex-namoradas, suas viagens,  suas confusões.

Não precisa me contar sobre sua saúde, seu relacionamento com os pais, irmãos e filhos.

terça-feira, 25 de abril de 2023

Idioma dos olhos

Aprendi com uma fotógrafa que para demonstrar felicidade em uma foto não é preciso sorrir com a boca, são os olhos que transmitem o estado de humor. Quantas vezes você já viu aquilo que chamamos de “sorriso amarelo”? Boca sorrindo e olhos chorando, denunciando o estado de espírito em sofrimento.  Quando uma pessoa está bem, seus olhos transmitem essa energia positiva que se projeta direto na foto. Não há como enganar.

Aprendi com meu neto Bernardo, que agora completou um ano de idade, que a boca também não é necessária para ser entendido, os olhos conseguem dizer quase tudo.

Quando brinco com ele e faço uma bolha de sabão, na tentativa de agarrá-la com as mãos, invariavelmente estoura. Ele me encara e seus olhos perguntam “onde foi parar a bola”? Ainda não tem capacidade de raciocínio para entender a fragilidade de uma bolha de sabão, o que ele quer mesmo saber é onde se meteu a tal bola que estava bem à sua frente, diante dos olhos.

terça-feira, 21 de março de 2023

Deslocamento longo

Deslocamento longo pode ser considerado sinônimo de saudade ou lembrança? Pergunta de um aluno durante aula sobre submodos no curso regular de formação em Filosofia Clínica.

Em princípio não, responde o professor, mas em filosofia tudo pode questionado, então vamos à discussão.

Deslocamento longo é um submodo utilizado em determinados contextos após avaliação da Estrutura de Pensamento do partilhante  e sob critérios bem definidos, saudade é um sentimento e lembrança é algo que fica registrado na memória como resultado de experiências vividas.  

Chamamos de deslocamento a habilidade de nos transportar, seja no tempo ou no espaço. Existem dois tipos de deslocamento, curto e longo.

Deslocamento curto acontece quando voltamos nossa atenção para algo que está ao alcance de nossos sentidos. Escutar o barulho dos carros na rua, sentir o cheiro da grama molhada pela chuva. A atenção fica voltada para fora do indivíduo e o alvo tem propriedades sensoriais que se conectam através dos sentidos.

Deslocamento longo já é diferente, pois transporta a mente humana para algo que está fora do alcance dos sentidos, entrando no âmbito das abstrações internas. Pode-se tanto retornar ao passado como projetar o futuro, possibilitando ao homem ir além dos limites de seu corpo físico. Quanto menos conectado às sensações, maiores as possibilidades de abstrações.

No sentido das abstrações, a saudade apresenta semelhança com deslocamento longo. Tanto pode ser um amor, um lugar ou um momento do passado que nos machuca no presente, como pode ter o efeito de uma felicidade retardada. Uma ausência que insiste em ficar ao nosso lado. Em alguns casos a saudade é tão grande que já nem é mais sentimento, a pessoa é a própria saudade, que aperta e não solta mais.

Vive para encontrar os olhos da pessoa amada em cada improvável esquina, ou retornar a algum endereço que nem mais existe. Quando a saudade bate, tanto pode doer como confortar, pois é um modo eficaz de enxergar o quanto se foi feliz no passado, funcionando como uma dívida pelas bênçãos e amor recebidos e sendo paga em longas prestações.

Nesta altura da explicação, mais uma vez o aluno interrompe o mestre argumentando que é possível haver lembranças boas ou ruins do passado, assim como pode-se utilizar deslocamento longo abstraindo e transportando pessoas no tempo e no espaço para situações agradáveis ou desagradáveis, no entanto com a saudade existia uma ambivalência.

Bom e ruim ao mesmo tempo, causando confusão, imprecisão e obscuridade na abstração. Sorrisos e lágrimas concomitantes, pois mesmo amores e situações maravilhosas do passado podem machucar e ser dolorosos por sua falta no presente. A impossibilidade da volta não é um impedimento para o desejo, mesmo que frustro.

Embora sabendo que não se deve universalizar, o aluno termina sua explanação com duas perguntas. Saudade sempre é um sentimento ambivalente de algo bom que não vai embora mesmo que sua presença sensorial não seja possível? Pode-se ter saudade de algo ruim?

O tempo corre depressa quando a conversa é boa. Já estava quase no final da aula, a discussão estava animada, provavelmente ainda seria longa. O professor olhou para seu relógio e encerrou a aula como se estivesse em uma consulta terapêutica. Recomendou uma literatura, solicitou que exercitassem deslocamentos longos nos próximos dias e combinou que na semana seguinte prosseguiriam. Antes de terminar deixou duas citações como inspiração:

Saudade é quando a memória tem ciúmes da vida.

Crime perfeito é matar a saudade.

Artigo publicado na Revista da Casa da Filosofia Clinica, Edição outono/março 2023