quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Boa Noite!

Algumas pessoas acreditam que dormir é uma perda de tempo. “Quando morrer, vou ter tempo de sobra para dormir e descansar”, é um adágio popular que reforça a idéia do desperdício de vida durante o sono. Adeptos desta teoria, costumam orgulhar-se do fato de que três ou quatro horas diárias de sono são suficientes para que recuperem suas energias.

Infelizmente, não é bem assim que as coisas funcionam. Quando o dia nasce, a luz penetra pela retina do seres humanos, estimulando seu metabolismo, e, quando o sol se põe, o metabolismo diminui. A função é manter o corpo em estado de alerta durante a claridade e em repouso na escuridão. A esta alternância entre sono e vigília, 16 horas acordado e oito horas dormindo, chama-se ritmo circadiano, do latim “Circa diem”- cerca de um dia.

Este ciclo é controlado pelo cérebro (hipotálamo) que funciona como um maestro. Numa orquestra, cada músico sabe tocar seu instrumento, conhece a partitura, mas é o maestro quem vai informar o momento exato em que cada músico deve entrar na sinfonia. Se um instrumento for tocado no momento errado, prejudicará toda a performance. Assim, a medida que o sol vai se pondo no horizonte, o hipotálamo vai diminuindo os níveis do hormônio cortisol (que mantém o corpo alerta), vai baixando a temperatura corporal e inicia a secreção de melatonina (hormônio indutor do sono), para que possamos dormir. Este é o mecanismo de funcionamento com o qual o homem foi criado para interagir na natureza.

Se ocorrer uma alteração na ordem interna de secreção hormonal, teremos uma dessincronização, com dificuldade para cairmos no sono. Luz, exercícios físicos, drogas, hormônios, podem alterar o ritmo circadiano e promover uma dessincronização.

Desde que o homem inventou a lâmpada, a noite pode artificialmente se transformar em dia, e com o surgimento de casas, janelas, óculos escuros, o dia também pode virar noite. Assim, os horários da natureza de nascer e pôr do sol, acordar e dormir, aumento e diminuição da secreção hormonal passaram a ser modificados pela evolução humana. A vida moderna se apresenta com trabalhos noturnos, festas na madrugada, academias de ginástica à noite, levando pessoas a não utilizarem seus corpos de acordo com o manual de fabricação: 16 horas acordados durante o dia e 8 horas dormindo à noite.
Qual o problema em se alterar o manual do fabricante em relação ao sono?

O funcionamento normal do Sistema Nervoso depende do ciclo sono-vigília. Durante o sono, o corpo humano funciona de maneira semelhante a um super mercado, que abre suas portas às 8:00 horas e fecha as 24:00 horas. Depois que a loja é fechada ao público, funcionários trabalham durante a noite na limpeza, manutenção, reposição de estoque, para que na manhã seguinte, os clientes encontrem a loja em condições ótimas para realizar suas compras. Durante o sono, o Sistema Nervoso Autônomo trabalha sem parar na limpeza do organismo humano, retirando radicais livres, produzindo hormônios que são liberados somente durante o sono profundo, etc. É como se ao dormirmos, entregássemos a chave de nosso corpo para um funcionário restaurar o que houvesse sido danificado durante o dia de trabalho.

Imagine-se trancado em uma sala durante oito horas, sem comer, beber, ir ao banheiro, falar, se movimentar e com um mecanismo interno de restauração e limpeza. É isto que acontece nas oito horas noturnas de sono e que está recomendado no manual do fabricante.

Além disto, somente durante o sono profundo, ocorre a secreção do hormônio do crescimento, fundamental na restauração e multiplicação celular. Noites mal dormidas, com sono superficial, não conseguem produzir o hormônio, levando a um envelhecimento precoce.

É no sono profundo (sono REM) que acontecem os sonhos. Durante os sonhos, experiências vividas recentemente são processadas e armazenadas no cérebro. A falta de sono profundo leva à problemas relacionados à déficit de memória para fatos recentes.

Por estas razões, afirma-se que uma hora de sono perdido, jamais poderá ser reposta, ao menos no que se refere à reposição celular e memória, visto que uma soneca de uma ou duas horas durante o dia, visando repor o sono perdido da noite, não chega a alcançar a profundidade necessária para secreção hormonal e sonhos.

De qualquer maneira, a soneca depois do almoço tem sua finalidade: reduzir a fadiga, que também é um efeito colateral de noites mal dormidas. Depois de 24 horas sem dormir, o sistema nervoso já está em fadiga. Testes de atenção demonstraram resultados semelhantes ao de pessoas que ingeriram três doses de whisky – 10 decigramas/litro de álcool no sangue. O nível alcoólico permitido em alguns países para dirigir veículos varia entre 6-8 decigramas/litro, o que equivale a 19 horas acordado.

Qualquer atividade realizada após dezenove horas de vigília, encontrará o organismo trabalhando dessincronizado do ritmo circadiano associado à fadiga por falta de sono. Ocorre um somatório de fatores contra-producentes: o corpo preparado para dormir, sonolento, fatigado, ineficiente, desatento e com predisposição a causar acidentes.

Conseqüências a curto prazo da dessincronização do ritmo circadiano? Algumas pessoas dormindo acordadas e outras deitadas sem conseguir dormir. Por vezes, a mesma pessoa encontra-se dormindo em pé e acordada ao deitar. Verdadeiros zumbis.

Conseqüências a médio e longo prazo? Envelhecimento precoce, déficit de memória, ansiedade, mau humor, reações emocionais exageradas frente a acontecimentos negativos.

Sabemos que produtos devem ser utilizados de acordo com as instruções contidas em seu manual de funcionamento. A natureza, em sua imensa sabedoria, proveu o funcionamento do homem com o ritmo circadiano de sono e vigília. O homem entretanto, parece ter um certo prazer em desafiar as leis da natureza, mesmo que para isto possa, conscientemente ou não, estar agredindo a si próprio e seus semelhantes.

Vale a pena perder horas de sono que jamais serão recuperadas? Depende. Se estas horas de sono forem trocadas por encontros, emoções, trabalhos, prazeres, atitudes que também se perderão para sempre se não acontecerem naquele momento, deve ser feita uma reflexão. Cada indivíduo deve pesar o valor relativo de uma noite acordada.

Antes perder uma noite de sono do que sonhar acordado ou mesmo dormindo com algo que foi perdido para sempre. Mas antes de escolher, é recomendável uma boa noite de sono para que as idéias fiquem bem claras.

Que possamos nos comportar como a “Bela Adormecida”, que dormia profundamente, mas trocou o sono pelo beijo de um príncipe. Boa noite!

Fragmento de palestra apresentada durante o 54 Congresso Brasileiro de Anestesiologia em Natal – nov/2007
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segunda-feira, 5 de novembro de 2007

PARA QUE SERVEM AS EMOÇÕES?

Imagine um mundo sem emoções. Todos os seres humanos funcionando como computadores. A comunicação entre as pessoas realizada apenas pelo conteúdo da linguagem, na sua mais plena literalidade, através de um processo de perguntas e respostas. Nenhuma alteração no tom de voz, na expressão facial, na postura.

Como um casal demonstraria afeto, amor, paixão, excitação, sem a capacidade de sentir e demonstrar emoções? Como as pessoas se relacionariam sem emoções? Tente imaginar um diálogo. Talvez você não seja capaz de imaginar, pela simples razão de estar acostumado, desde o nascimento, a viver em contato com outras pessoas e a vivenciar emoções em maior ou menor grau, ficando difícil, senão quase impossível, vislumbrar um mundo sem emoções.

Desde o processo de amamentação, onde a mãe afasta o filho do mamilo e este grita, chora, esperneia, faz caretas em sinal de protesto, passando pelos ganhos e perdas da infância e adolescência, relações sexuais com parceiros, transações comerciais, etc, vemos que o ser humano vive uma inter-dependência de necessidades com seus semelhantes. Estas conexões acabam por despertar emoções, que nem sempre são agradáveis.

Algumas pessoas possuem, ou acabam por criar mecanismos protetores contra emoções. No intuito de preservarem-se de sentimentos desagradáveis, minimizam as emoções. Passam a vida como navios ao mar, que passam ao largo uns dos outros.

Vale a pena viver sem emoções? Sem emoções, o ser humano seria indiferente aos outros, teria dificuldade em armazenar memórias e provavelmente teríamos um mundo onde as decisões seriam tomadas exclusivamente pela razão.

Religiões e até mesmo alguns filósofos pregam que o homem deva se esforçar para ser mais cerebral, mais racional e menos carnal, tendo controle sobre suas emoções. O fato de alguém possuir um corpo com emoções, muitas vezes é visto como uma fraqueza. De fato, tanto a inexistência como o descontrole emocional, podem ser deletérios, muitas vezes inviabilizando um convívio social.

O paradoxo está justamente no fato de que decisões éticas baseiam-se muito mais em emoções do que na razão propriamente dita. Quando estamos frente a uma situação onde a escolha é entre o certo e o errado, a racionalização é simples. Matar ou não matar? Estudar para a prova ou colar? Decisões facilmente previsíveis, baseadas em códigos morais da sociedade que aprovam ou desaprovam determinadas condutas.

A dificuldade surge quando a escolha precisa ser feita entre duas situações potencialmente corretas. Sacrificar um animal que está sofrendo sem possibilidade de alívio ou não matar? Dar esmolas na esquina ou não? Punir um erro involuntário ou não?

Quem resolve estes dilemas? Leis, religião, filosofia, racionalização, não conseguem contemplar o universo de embates éticos que podem ser colocados frente aos indivíduos.

Quando decisões envolvem relacionamento, dependência, vulnerabilidade, as emoções podem servir como uma bússola interna, ativando lembranças e memórias de situações onde as pessoas foram alimentadas, cuidadas, amadas, abraçadas, desprezadas, ignoradas, abandonadas.

A lembrança de emoções experimentadas ao longo de uma vida, remetendo ao modo como fomos tratados e como nos sentimos, serve como uma bússola orientando decisões sobre como devemos tratar os outros. No momento em que ocorre uma inversão de papéis e um indivíduo consegue se colocar no lugar de outro, as emoções passam a ser responsáveis pelas decisões éticas entre o certo e o potencialmente também certo.

Enquanto os problemas e decisões forem relativos à situações hipotéticas e abstratas, a razão é soberana. No momento em que um ser vivo sensibilizar, afetar, emocionar outro semelhante, as emoções assumem o controle, remetendo-se a situações e valores que suportem a decisão a ser tomada e que remontam a milhões de anos de evolução da humanidade, pois em se falando de emoções, estas permanecem inalteradas em sua essência desde que o mundo é mundo.

Para que servem as emoções? Para nos diferenciar dos computadores, dar mais colorido a vida, ter um espírito mais cooperativo e principalmente, inibir atos que possam prejudicar aos outros.
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quinta-feira, 25 de outubro de 2007

DESCOMPORTE-SE

Em tese, comportamentos tem, intrinsecamente uma função.
Beber água (comportamento), com a função de matar a sede.
Beber cerveja (comportamento) para esquecer alguém (função).
Estudar bastante (comportamento) para passar no vestibular (função).
Vestir-se bem (comportamento) para impressionar (função).
Porém, nem sempre a relação entre comportamento e função é facilmente identificada e de simples compreensão.

Grande parte dos comportamentos são desempenhados sem raciocínio. Manifestam-se como um ato reflexo, quase que automático, não havendo um planejamento consciente e minucioso nem tempo hábil para ajustes e testes de desempenho de forma a antever que aquele comportamento irá conduzir a um objetivo específico e desejado.

Vale lembrar que comportamentos são a exteriorização da personalidade, portanto sujeitos a interferências de formação educacional, familiar, social, cultural, aliadas a fatores de ordem interna, tais como emoções, pré-juízos, sensações, os quais são acionados e combinados nas mais diversas situações, gerando comportamentos que nem sempre tem ou guardam relação direta e lógica com funções.

Algumas pessoas passam uma vida inteira se comportando de determinada maneira, enquadradas em algum raciocínio sofista, buscando cumprir funções completamente absurdas e irreais.
Assim, podemos ter comportamentos que não gerem funções, comportamentos que gerem mais de uma função, e até mesmo, funções não relacionados a comportamentos.

Compreendendo que um comportamento nem sempre remete a uma função e vice-versa, como saber se um comportamento está vinculado a uma função?

É preciso um comportamento estar relacionado a um objetivo definido?

Ingerir bebidas alcoólicas tem somente a função de esquecer algo?

Vestir-se bem deve estar relacionado somente ao fim de impressionar os outros?

Estes questionamentos levaram a uma inquietação e forçaram uma visão mais ampla do assunto: A separação entre comportamento e finalidade/objetivo/função, poderia abrir novas perspectivas.

Durante a guerra do Golfo, a rainha-mãe do Sultanato de Omã, país aliado dos Estados Unidos, adoeceu e foi transferida para tratamento em Washington (EUA). Após a alta hospitalar, com a finalidade de dar uma continuidade no tratamento, foi desenvolvido um sistema de tele-medicina. Computadores e câmeras digitais interligando hospitais de Washington e Mascate (capital de Omã), permitiram que fossem transferidas eletrônicamente informações médicas, inclusive imagens digitalizadas, colocando a paciente de maneira a ser "vista" com a frequência necessária.

O comportamento tradicional da relação médico-paciente é presencial, ou seja o paciente frente a frente com o médico. O objetivo é o diagnóstico e tratamento. Geralmente comportamento e função estão associados em uma instituição médica. Neste caso, tivemos a preservação do objetivo/função (diagnóstico e tratamento) com o comportamento assumindo um novo formato (computadores e redes de alta velocidade).

Depois deste episódio inicial do uso da tele-medicina surgiram cirurgias a distância com robôs, video-conferências, consultas a distância, preservando a finalidade da medicina, mas agora com alteração comportamental.

Desvinculando, procurando novos comportamentos para determinadas funções, surgiram grandes descobertas, que permitiram a evolução da humanidade, mas, ao mesmo tempo, provocaram grandes confusões comportamentais.

Promessas de campanha eleitoral em troca de votos, de mordomias no céu após a morte em defesa da pátria, de status após a compra de determinado produto, de beleza após determinado tratamento, podem funcionar como maquiagens para se obter determinado tipo de comportamento. Metas ilusórias ou ilusões funcionais, criadas pela própria pessoa ou por outros para justificar ou induzir determinados comportamentos, que eventualmente alienam e servem de consolo aos iludidos.

Qual a importância de desvincular comportamento e função?
Liberdade.
Liberdade para se comportar sem preocupação específica com determinada função.
Liberdade para procurar tipos alternativos de comportamento que proporcionem as mesmas ou outras funções, e acima de tudo, liberdade para identificar e corrigir comportamentos anômalos e equivocados.
Sinta-se livre para comportar-se ou, se quiser, descomporte-se.
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domingo, 7 de outubro de 2007

ALERTA: RUIDOS NA TRANSMISSÃO

Na tentativa da comunicação verbal, nem sempre o que um fala é o que o outro escuta, e o mesmo pode ocorrer na forma escrita, quando o que se apresenta pode ser lido e entendido de maneiras diferentes.

A origem desta falta de sintonia pode partir tanto de quem envia como de quem recebe a mensagem, pois uma série de interferências internas e externas estão em jogo.

Nem sempre é fácil exprimir em palavras pensamentos e emoções, ou, em outros termos, é difícil transmitir com clareza um sentimento ou uma emoção, e talvez o motivo desta dificuldade seja a própria emoção, mas isto é um outro assunto...

Se por um lado existe a dificuldade em transmitir, receber também tem suas peculiaridades. Pessoas escutam, lêem, vêem e depois interpretam a mensagem de acordo com suas visões de mundo. Distorções também podem acontecer por desatenção, expectativa e ansiedade em assimilar de imediato o conteúdo da mensagem recebida. Um velho ditado popular já dizia “cada um escuta o que quer ouvir”.

Arthur Schopenhauer, filósofo alemão, dizia que o mundo não é mais do que “representação”, tendo de um lado o objeto constituído a partir de espaço e tempo e de outro a consciência subjetiva acerca do mundo, sem a qual este não existiria. O objeto, a coisa em si, passaria a ser representada por símbolos, idéias, valores, utilidade, de acordo com as visões de mundo de quem os estivesse utilizando.

Desacertos, brigas, mal-entendidos, quebras de contrato, divórcios podem vir a acontecer por descompasso no relacionamento, na comunicação ou em ambos. A literalidade das palavras poderia ser uma tentativa válida de sintonia na comunicação?

O ser humano é essencialmente verbal, utiliza palavras tanto para explicar como também para enganar, iludir, persuadir.

A linguagem verbal pode utilizar meios complementares, tais como gestos e expressões corporais, (“o corpo fala”), sem falar em recursos da própria palavra, trazidos pela diferentes culturas, tais como gírias, metáforas, simbologias, etc.

Experimente literalizar a explicação de um pensamento ou sentimento sem o uso de metáforas, simbologias e você terá idéia da dificuldade. Todos esses recursos utilizados podem ser eficientes para prender a atenção do receptor, mas não necessariamente ao conteúdo da mensagem. Podem inclusive, ter efeito contrário ao desejado, desviando a atenção e dificultando o processo de compreensão.

Mesmo quando do uso de uma mentira, isto nem sempre é um sinal de hipocrisia, pois às vezes acredita-se tão firmemente na versão ou visão criada, que a mentira está sendo contada inicialmente para o próprio criador e a palavra emitida já sai distorcida da realidade.

Há que se considerar que palavras nem sempre acompanham a velocidade do pensamento, e a diversidade humana representada por vivências, crenças, expectativas, bagagem cultural torna o processo de comunicação eficaz uma missão praticamente impossível. Assim, palavras, emitidas ou recebidas em plena literalidade, não seriam confiáveis e seriam incompletas em seu significado.

Talvez uma alternativa menos sujeita a falhas fosse prestar mais atenção aos atos, ao comportamento do que as palavras e promessas. Confúncio já dizia: “Atue antes de falar, e portanto fale de acordo com seus atos”.A distância entre o que as pessoas dizem e fazem muitas vezes não é percebida nem por quem fala nem por quem ouve.

Quando alguém nos dá a entender determinada situação, dizendo as palavras que queríamos ouvir, nossa reação natural é encaixar as palavras em nossa visão de mundo e acreditar no que ouvimos, muitas vezes ignorando o comportamento e funcionamento incoerente do prometido. Nossa escolha foi prestar atenção somente no que nos interessa e nos iludir com as palavras, ignorando o objeto, a situação ou a conduta de quem promete.

Sob esta ótica, a palavra seria uma forma de manipular a representação de mundo das pessoas. Uma ferramenta poderosa, que dependendo do uso, pode criar, levantar ou destruir visões de mundo. E esta ferramenta pode ser ou vem sendo utilizada por políticos, publicitários, professores, artistas, terapeutas e formadores de opinião muitas vezes de maneira irresponsável, sem medida de suas conseqüências. Uma palavra mal interpretada, uma virgula fora do lugar, uma informação recebida sem reflexão, podem destruir pessoas, relacionamentos e até mesmo países.

Passemos a um exemplo prático: ao se anunciar um shampoo como o melhor para cabelos crespos, o que significa a palavra melhor? Qual a sua dimensão? Um político ao prometer um melhor tratamento a saúde pública, um terapeuta ao dizer que assim será melhor a seu paciente, um parceiro ao prometer melhor empenho, um professor ao indicar o melhor livro, estão pensando e transmitindo o quê? E o que foi captado pelo interlocutor terá alguma relação com o que foi pensado ou dito? Tudo depende de valores, elementos essencialmente subjetivos, que podem divergir completamente na concepção dos interlocutores.

Cuidado com as palavras. Palavras são anões. Exemplos são gigantes. Um verdadeiro intelectual não é medido pelo que lê, escreve ou fala, e sim por uma vida comprometida com suas idéias.

O critério de escolha de um político, terapeuta, companheiro, produto ou serviço ao se basear em palavras, titulações ou estética pode ser falho e gerar desilusões. A observância do comportamento, comprometimento e coerência entre o falar e o fazer são condutas mais apropriadas tanto para quem fala como para quem ouve, não esquecendo de que o silêncio pode falar mais do que mil palavras.
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sábado, 29 de setembro de 2007

Marketing para o Anestesiologista




Os dois grandes ramos da Medicina sempre foram a Clinica e a Cirurgia. Quase a totalidade dos médicos dedicava-se ao estudo da técnica e clínica cirúrgica ou clinica médica, e relegavam a anestesia a um plano secundário. Enfermeiras, estudantes, religiosos eram encarregados de praticar anestesia, e o faziam de maneira muito precária. As deficiências eram múltiplas: formação anestésica inadequada, falta de medicações seguras, inexistência de monitores e aparelhos de aplicação de anestesia fidedignos. Em mãos não habilitadas, a administração de anestesia torna-se muito perigosa, e, como conseqüência, ocorreram vários acidentes; óbitos, seqüelas físicas (plegias, atelectasias, pneumonias, insuficiências renais, enfartes, etc) e psicológicas.

Evidências concretas criaram a fama de que a anestesia era perigosa, e sempre haveria o risco de alguma complicação anestésica durante o procedimento cirúrgico. Em épocas de carência de conhecimento médico e desinformação da população, tornou-se cômodo imputar qualquer infortúnio no período peri operatório como conseqüência da utilização da anestesia. Expressões tais como "Não resistiu à anestesia", eram utilizadas para explicar tanto complicações por hipotensâo devida a vasodilatação como por hemorragias intensas.

A evolução da anestesia para uma especialidade médica com formação específica, a criação de entidades associativas, o conhecimento mais aprimorado do mecanismo de ação e efeitos dos anestésicos e medicações adjuvantes, o surgimento de medicamentos mais seguros, a monitorizaçâo mais ampla e fidedigna e a aparelhagem anestésica com recursos de precisão, fizeram com que a morbi/ mortalidade da anestesia decaíssem sensivelmente. Eventualmente ainda ocorrem acidentes, e quando acontecem, geralmente a equipe médica não fornece informações imediatas e precisas, favorecendo que familiares e mídia passem a divulgar suas versões, que realimentam a fama da anestesia ser perigosa.

0 anestesiologista, ao invés de ser visto como um médico especialista que cuidará do bem estar e das funções vitais do paciente durante o peri-operatório (um guardião do sono), é muitas vezes confundido como o "vilão" do procedimento cirúrgico.

Além destes fatores relacionados à insucessos, existe um agravante. A anestesia faz parte de uma categoria de produtos e serviços não desejados. Ninguém submete-se a uma anestesia por desejo, e sim, por necessidade absoluta. Algo que não é desejado e ainda pode ser perigoso, faz com que as pessoas se afastem.

Marketing, na sua versão mais simplista, significa "dar-se" para o mercado, "mostrar-se", "oferecer-se". Em uma operação exitosa de marketing, o cliente deve ter anseios de obter o produto/serviço oferecido. Em outras palavras, o produto/serviço "vende-se" por si mesmo.

Não se deve confundir marketing com propaganda e vendas. Uma série de estratégias e ações são efetivadas dentro de um planejamento de marketing, sendo a mídia o final de um processo. As estratégias de marketing podem iniciar até mesmo antes do produto existir. Na área médica, a utilização da mídia como marketing, talvez seja a ação menos importante.

0 objetivo deste estudo é colocar o marketing (arte de fazer com que o cliente deseje determinado produto) à serviço da anestesia (produto não desejado e potencialmente perigoso).

0 marketing vem em socorro da anestesia para melhorar sua imagem, fazer com que a anestesia se "venda" melhor e aprofundar o relacionamento com a sociedade.

0 anestesiologista em seu trabalho diário é um representante da categoria e seu comportamento profissional, reflete-se na imagem da especialidade. 0 relacionamento com pacientes, familiares, cirurgiões, clínicos, enfermagem, indústria farmacêutica, direção hospitalar, planos de saúde, imprensa e colegas anestesiologistas, formará a imagem do profissional, que indiretamente espelhará o padrão da especialidade. Um profissional mal orientado pode prejudicar todo o trabalho de uma categoria.

Baseados na premissa de que atitude e comportamento determinarão a formação e propagação da imagem do profissional e da especialidade, orientações no sentido de superar as expectativas do cliente, contribuirão para reverter a imagem "negativa" da anestesia, resultado de décadas de obscuridade tanto do saber anestésico como do próprio anestesiologista que mantinha sua atividade restrita à sala de cirurgia.

A relação do anestesiologista com o paciente é pobre em quantidade, porém pode ser riquíssima em qualidade. 0 paciente, via de regra, entra em contato com o anestesiologista em virtude da necessidade de uma cirurgia. Nesta situação, iniciam-se todos os temores em relação à anestesia, frutos da bagagem de informações adquiridas ao longo de suas vivências. 0 resultado costuma ser um paciente ansioso, carente, receoso de entregar o controle de sua vida à um estranho que realizará um procedimento potencialmente perigoso.(

Exatamente neste momento (paciente no auge de sua ansiedade), é quando o anestesiologista tem a oportunidade de, entendendo a situação do paciente, relacionar-se de maneira a oferecer conforto, segurança e conhecimento, modificando a imagem de "vilão" para "protetor da saúde do paciente".

Empatia significa tratar o paciente como gostaríamos de ser tratados, e a empatia pode ser alcançada através de atitudes muito simples: chamando o paciente pelo nome, olhando nos olhos, escutando com atenção, tocando o paciente, não utilizando termos técnicos de difícil compreensão. Firmar compromissos também é importante: assegurar presença e constante vigilância ao lado do paciente durante todo o procedimento, prescrição de analgésicos, localizaçâo imediata no pós operatório, se necessário.

Adquirir a confiança do paciente é fundamental para o sucesso do tratamento, porém, confiança não se pede, conquista-se. Alguns minutos de anamnese e exame físico são suficientes, desde que o médico esteja realmente neste tempo somente focado no paciente e faça-o sentir seu interesse. A medicação pré-anestésica e a anestesia propriamente dita poderão ter suas dosagens diminuídas, dependendo do grau de confiança conquistado.

Recomendações relativas à jejum, uso ou interrupção de medicamentos, data e horário da cirurgia devem ser entregues ao paciente de maneira escrita. Folders explicativos referentes aos tipos de anestesia, importância do jejum, cuidados pré e pós operatórios, complicações, etc podem ser entregues ao paciente ao final da consulta. A assinatura do consentimento informado da realização da anestesia é um procedimento indicado.(4) Todo o material impresso é importante, na medida em que tangibiliza o serviço realizado. 0 paciente sente-se mais seguro ao sair de uma consulta com instruções escritas, ao mesmo tempo em que o nome, endereço e telefone do anestesiologista ficam registrados no material impresso.

0 consultório é o local ideal para a realização da avaliação pré anestésica, e seu uso deve ser estimulado através da criação de salas específicas com sinalização adequada dentro de hospitais, ou consultórios privados, onde rotineiramente todos os pacientes candidatos à cirurgia eletiva sejam avaliados.

0 crescimento da área de atuação do anestesiologista, sendo agora responsável pelo peri-operatório e não apenas pelo trans-operatório como no passado, trouxe um envolvimento maior com pacientes, familiares e equipe médica, favorecendo o reconhecimento e divulgação de seu trabalho.

Cuidados no pós operatório são fundamentais. As recordações que o paciente guarda da anestesia, são do período pré e pós anestésico, visto que, via de regra, durante a cirurgia o mesmo se encontra sedado ou dormindo. Prescrição de medicaçâo anti-emética, analgesia, hidratação, manutenção da homeostasia, ansiolíticos, trazem conforto e bem estar ao paciente, fazendo com que as lembranças da internação hospitalar e da anestesia possam ser agradáveis.

Acompanhamento no Centro de Recuperação e na Unidade de Internação após o procedimento, trazem a oportunidade de divulgação da especialidade através da atuação do médico e do esclarecimento de dúvidas. Nesta ocasião é importante demonstrar preocupação com a satisfação do cliente e qualidade do serviço oferecido, pois serão os determinantes da imagem formada e propagada pelo paciente.

A evolução do conhecimento científico deve ser estimulada e demonstrada. Criação de Serviços de Anestesia em hospitais, discussões de casos clínicos com a equipe cirúrgica, desenvolvimento de protocolos específicos, realização seminários e palestras de atualização e/ou revisão, estímulo à pesquisa, estágios e congressos são ações que facilitam a percepção do desenvolvimento contínuo da especialidade. 0 conhecimento médico deve ser percebido tanto por colegas de outras especialidades como pela população leiga. Programas de esclarecimento à comunidade através da imprensa, palestras, exposições, auxiliam o processo de divulgação do aprimoramento e segurança alcançados pela anestesia.(5)

Entidades associativas assumem papel fundamental demonstrando organização, liderança e representatividade junto a organizações médicas, governamentais e privadas. A participação efetiva dos anestesiologistas fortalece as Sociedades Regional e Nacional.

Excelência no atendimento, pontualidade, aprimoramento e divulgação do conhecimento científico, empatia, coleguismo, conscientizaçâo do trabalho em equipe, tangibilização, participação associativa, são atribuições diárias de um profissional.(6) 0 reconhecimento do valor e da qualidade de um médico por colegas e pela população será o sinalizador de que seu trabalho está atingindo ou mesmo superando as expectativas e contribuindo para elevar o grau de confiança em sua especialidade.
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