domingo, 5 de março de 2017

O preço de ser rei

Nasci com nove anos de idade. Alfabetizado, todos os dentes na boca, nunca usei fraldas ou chupei bico. Não lembro de nada antes dos nove. Não sei com quantos meses comecei a andar, a primeira palavra que falei, meu brinquedo predileto, o gosto da mamadeira, o nome das professoras da escola. Nunca tive o tradicional álbum do bebê, sequer me interessei em perguntar. Tudo que alcanço desta época me foi relatado, lembrança zero. Dizem que era tratado com todas as mordomias, como um reizinho, apelido que carrego até hoje. Mas por que esqueci ou apaguei da memória um período tão glorioso de minha vida? Tenho algumas hipóteses.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Não entendi. Sinto muito.




Pessoas que terminam frases com a pergunta “não é?” me intrigam. Sempre quis saber como funciona a mente destas criaturas.

Quando Pedro diz que segunda feira é o pior dia da semana, e,  em seguida, me interroga com o detestável “não é?”, na prática, efetivamente está esperando minha confirmação para avançar com a conversação.  Precisa de cumplicidade e aprovação para continuar o raciocínio. Por que a cada duas ou três frases estas pessoas precisam de um apoio, uma base para suas falas?

Geralmente não nos dão tempo para responder, mas é assim mesmo que funciona o jogo. Ao falar o "não é", encaram-nos firmemente, constrangendo-nos e, meio que sem jeito, educadamente balançamos afirmativamente a cabeça, piscamos ou baixamos os olhos. Já é o bastante para que concluam que concordamos e prossigam seu falatório. Na verdade, não querem escutar nossa resposta, precisam apenas de um sinal verde para ir em frente com seu discurso.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

padrinho de casamento

Fui convidado para apadrinhar um casamento. O noivo era um amigaço. Desde a adolescência fomos parceiros nas boas e nas ruins. Conheci todas as namoradas anteriores. Dei palpites, conselhos, apresentei, consolei, apoiei, menti que estávamos juntos para limpar a barra, ajudei a terminar, emprestei o carro, fiz sala para a amiga chata, telefonei na hora marcada pra livrar da encrenca. Enfim, torcíamos um pelo outro, jogávamos no mesmo time, acreditávamos, confiávamos e nos defendíamos mutuamente. Claro que eu tinha de ser homenageado como padrinho deste casamento.

Claro mesmo? Nem tanto. Minha intimidade era com o noivo. A noiva conhecia superficialmente, de encontros e conversas sociais. Era a mulher que meu amigo havia escolhido para casar, simpática, bonita, inteligente, bom papo e estavam apaixonados. Tinha certeza que representava o papel de melhor amigo, no entanto, não sabia qual seria minha função como padrinho do casamento.

Acontece que não tive tempo de fazer estas elucubrações filosóficas, fui pego de surpresa com o convite, que veio da seguinte forma: “Cara, eu sempre disse que um dia teria sorte, encontraria e casaria com a mulher da minha vida. Quero que você esteja comigo, ao meu lado, como padrinho, na hora de dizer o sim. Preciso de ti”.  

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

PORTAS ABERTAS

Recebi algumas criticas sobre meu ultimo artigo “Ainda estamos juntos”. Falavam que sempre deixo uma mensagem no ar, um espaço para interpretações, e, neste caso especifico, a frase final “quando existe amor, as portas nunca fecham”, seria um recado velado, ou, até mesmo, super direto para alguma pessoa em especial.

Aceito todas as criticas com muito respeito, mas preciso esclarecer que quando escrevo, minha intenção nunca é fechar a questão ou as portas. Quero provocar o leitor a pensar, discordar, ir além do texto. A graça de ser escritor é poder conduzir a imaginação do leitor, e, quanto mais longe eu conseguir levá-lo, melhor.

Se o texto for um recado, uma teoria, uma história, não faz a menor diferença, o objetivo do escritor é criar, na medida de suas possibilidades, meios de comunicação entre as ilhas de seu arquipélago, construindo pontes, fornecendo embarcações, ensinando a nadar.

Aproveitando o assunto “portas”, gostaria de contar a história de duas namoradas do passado. Faz tanto tempo, que talvez esqueça alguns detalhes propositadamente.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Ainda estamos juntos

Sonhei com meu pai. Estava com uma aparência saudável, avental de médico e muito animado. Chamou-me para ver o consultório que montara em seu novo plano existencial. Se quiserem, também podem chamar de céu. Era um consultório nos mesmos moldes que mantinha aqui na terra: papel de parede diferenciado, grande sala de espera, aquário com peixinhos, poltronas confortáveis, diplomas e quadros nas paredes.

Disse-me que demorou quase um ano para se ajeitar por lá, mas que agora já estava em condições de atender seus clientes. Parecia feliz em mostrar sua adaptação.

Despertei e não me preocupei em interpretar nada. Signifiquei apenas que a partida dele foi tranqüila, que estava bem por lá, que mantinha conexão comigo. Passei a manhã inteira animado e com uma sensação de leveza, missão cumprida e proteção espiritual. Bateu uma saudade forte também.

Acontece que sendo filósofo, não pude me furtar de pensar que onde quer que meu pai esteja, seu consultório não terá poltronas, mesas, estetoscópios, quadros. Até onde eu saiba, lá em cima não existe corpo, não há matéria. No sonho, desloquei-me até lá, mas fui com a visão de mundo terrena, com aquilo que conheço, com as idéias que me povoam. 

Não entrei verdadeiramente em sua morada atual, não sei como funcionam as coisas por lá. Para mim é algo muito vago, confuso, misterioso, e até certo ponto, impenetrável para quem ainda reside num corpo. Meu subconsciente fez de conta que fui até lá, mas certamente o consultório dele é bem diferente do que sonhei, o que não diminuiu, de forma alguma, o prazer de sonhar com meu pai.