domingo, 20 de março de 2022

Saber ouvir é quase conversar em silêncio

Certa vez estava fazendo uma palestra e, com o canto do olho, percebi uma movimentação estranha na platéia do auditório. Não consegui prestar muita atenção porque estava focado na minha fala, mas deu pra ver que era restrito a um pequeno grupo de pessoas, especialmente uma criatura que não parava de se movimentar.

Quase interrompi meu discurso para solicitar que a pessoa ficasse quieta, mas por sorte, ou por uma apreciação mais demorada, constatei que se tratava de um grupo de surdos que estavam acompanhando minha palestra através de um tradutor, que  utilizava  gestos e sinais para se comunicar na Linguagem Brasileira de Sinais (Libras). Por pouco não cometi uma desfeita com aquela comunidade que ali estava por um admirável projeto de inclusão social.

sábado, 26 de fevereiro de 2022

As melhores coisas da vida são invisiveis

Somos condicionados a prestar atenção em coisas importantes e deixar de lado tudo aquilo que nos parecer insignificante. Para escapar de animais ferozes, nossos ancestrais estavam sempre alertas. Quando percebiam qualquer movimento suspeito, automaticamente eram levados a olhar naquela direção. Este mecanismo de atenção para auto proteção nos acompanha noite e dia, no entanto, pode ser facilmente manipulado.

Não enxergamos o mundo como ele de fato é, mas como nosso cérebro o representa. Cada olho nosso funciona como uma câmera de um megapixel, e o que não conseguimos ver com nitidez, nosso cérebro preenche através de experiências passadas. Um movimento e um rugido na selva pode ser interpretado como uma fera se aproximando.

domingo, 23 de janeiro de 2022

Não estou só, estou sem

Realizei uma pesquisa com pessoas que perderam familiares durante a pandemia de Covid-19. Com a devida permissão, transcrevo um trecho da entrevista de uma viúva de 55 anos de idade, que num espaço de apenas cinco dias, obteve o diagnóstico, internou e perdeu o marido que tanto amava. Era um profissional autônomo de 60 anos, aparentemente saudável, levemente obeso. Não tinham filhos.

Entrevista realizada três meses após o falecimento. Infelizmente não consigo transcrever as lágrimas que escorreram na tela, mas aconteceram. Não foram poucas. Contagiaram o entrevistador.

- Sente muita solidão depois da perda?

“A questão não é solidão. Tenho amigos, família e até um psicólogo que está me orientando, dando apoio e companhia. Não se trata de estar só, mas de estar sem. Ele não está mais aqui para dividir a vida comigo. Partiu de repente, sem se despedir. Foi triste, esta sendo muito triste.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Quase certezas

 

Desde que me lembro por gente, tentei fazer as coisas para agradar aos outros, queria que todos gostassem de mim. Cumpria aquilo que a cultura pregava como certo. Naquela época, a maneira digna e decente de se viver incluia obediência, perfeição, honestidade, estudo, trabalho, sucesso. Precisava provar para a família e a sociedade o meu valor, então segui todas as regras ao pé da letra.

Nunca perdi o ano na escola, obedeci e respeitei meus pais e professores, fiz faculdade de Medicina, arranjei um emprego, casei no cartório e sinagoga, tive um filho. Sabe aquela propaganda de margarina com a família perfeita? Era mais ou menos assim, só faltou o cachorro correndo pelo jardim.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Desejo

 

Seres humanos vivem para amar – pelo menos na teoria.

Matam por amor – é um fato.

Morrem por amor – também é um fato. Física e espiritualmente.

Afinal, o que é o amor?