quinta-feira, 2 de abril de 2020

Desta vez, não arrisque


Desde criança aprendi que nosso bem maior é a vida.  O Talmud, livro sagrado dos judeus, enfatiza que aquele que salva uma vida é como se salvasse o mundo inteiro, inclusive havendo  na lei judaica uma obrigação bíblica de salvar vidas. É permitido quebrar quase todos os mandamentos a favor de uma vida em perigo.

Existe uma discussão clássica do caso de duas pessoas que estão viajando pelo deserto e apenas uma tem água suficiente para sobreviver. Seria melhor dividir a água e ambos morrerem ou um apenas sobreviver? Não há consenso, mas esta é a característica que dá graça e sabedoria ao Talmud: o debate, a argumentação. Vamos a ela.

quarta-feira, 25 de março de 2020

O deserto e o dilúvio


Sonhava ficar em casa de pernas pro ar durante três meses enquanto é jovem e sadio? Pode comemorar. Seu pedido foi atendido. Você está livre do trabalho, da escola, da universidade. Agora tem tempo de sobra pra fazer o que quiser. Não está doente, tampouco aposentado e se tiver sorte ou for precavido, seus rendimentos ainda estão garantidos.

Só que não. Você está doente, mas não sabe. Os sintomas estão saltando aos olhos e você não vê ou se nega a enxergar. Pensa que está saudável e assintomático, mas está enganado. Não estou falando do coronavirus, desta praga vamos nos salvar. A sua doença é mais grave, assumiu uma forma crônica e a única maneira de se curar talvez seja o confinamento obrigatório.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Quem pagou a conta?



Durante muito tempo pratiquei uma estratégia “infalível” ensinada por um amigo para selecionar certo tipo de mulheres. Não me orgulho nem um pouquinho de ter feito isto, pois é uma técnica altamente preconceituosa. Enfim, todos têm sua parcela de defeitos e preconceitos por questionar.

Funcionava assim: quando me interessava por alguma mulher, perguntava se ela gostaria de tomar um café ou bebida comigo. Na hora de pagar a conta, observava se faria algum sinal de dividir as despesas ou não. Nunca as deixava pagar, mas ficava atento. A estratégia era justamente saber se a mulher achava que o homem, pelo simples fato de ser homem, deveria seguir as regras de etiqueta e pagar as despesas da mulher, somente por ela ter nascido mulher.

Naquela época o movimento feminista ainda engatinhava, e a estratégia era simplesmente descobrir com que tipo de mulher estava lidando. Tinha o cuidado de nunca convidar formalmente para o encontro, justamente para descaracterizar o argumento de quem convida paga a conta.  O convite era realizado mais ou menos assim: “topas um café?”, “que tal uma cerveja um dia destes?”.

Certa noite, numa destas investidas, quando chamei o garçom para pedir a conta, já estava paga. Minha companheira de mesa havia acertado tudo enquanto fui ao toalete. Percebendo meu espanto com seu comportamento, ela se adiantou e, sem que eu perguntasse, foi explicando. “Não existe almoço de graça, se alguém lhe paga por algo, vai querer o retorno. Quando a mulher aceita que o homem lhe pague o jantar, subliminarmente está passando a mensagem que talvez um dia vá lhe dar algo em troca”.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Entre bruxas e princesas


Você já teve contato com bruxas? Tive vários. Algumas usaram a vassoura pra varrer e logo em seguida partiram, outras voaram comigo por muito tempo. Algumas purificaram minha alma, outras lançaram feitiços, outras me encantaram. Talvez você não acredite em bruxas, mas que “las hay, hay”.

Antigamente eram queimadas vivas, hoje a era das fogueiras acabou, e as netas daquelas que sobreviveram estão mais vivas que nunca, espalhadas por todos os cantos, queimando todas as regras.

Numa pesquisa aparentemente inocente, pediram a vários homens que fizessem uma escolha delicada. Suas companheiras seriam doze horas por dia  bruxas e nas outras doze horas, princesas. Metade do dia elas teriam pele enrugada, cabelos desalinhados, mau cheiro, verrugas no nariz, falta de dentes, comportamento estranho, marcas de nascença, cicatrizes e tudo mais que caracterizasse uma bruxa clássica. Na outra metade teriam pele sedosa, cabelos lindos, bem tratados, corpos esculturais, olhos da cor azul piscina, cheiro adocicado de mel. Mais ainda, seriam carinhosas, super inteligentes, bem educadas e amorosas. A princesa de todos os contos de fada.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

2020 - Recomeço ou continuação?


David era um menino que não sabia direito a origem de seu nome. Seu pai dizia que era uma homenagem ao grande mágico americano David Copperfield, a mãe replicava alegando que deu o nome pensando no rei David, o grande sábio de Israel. Seja como for, eram duas grandes personalidades inspiradoras para sua vida.

Aos cinco anos de idade, como presente de aniversário, foi levado a Las Vegas para assistir ao show de mágicas de seu suposto influenciador nominal. Ficou encantado. Ao final, mais uma surpresa, tirou fotos, abraçou e foi presenteado com a varinha mágica do próprio David Copperfield.

No outro dia, ainda no quarto do hotel, chorava copiosamente. Havia sido enganado pelo ídolo. A varinha presenteada não fazia mágica alguma. Era falsa. Frustrado, magoado e indignado com seu xará, enfiou a varinha num saco e prometeu que seria um mágico muito melhor que seu homônimo.