domingo, 10 de março de 2019

Sonhei com Deus


Sonhei com Deus.

Não tinha forma humana, na verdade não tinha forma alguma, era algo parecido com uma nuvem ou um algodão doce, só que muito mais iluminado e branco como a neve. Chegava a doer os olhos. Poderia até ter ficado em dúvida do que se tratava, mas a serenidade, o empoderamento, o cuidado e o acolhimento que me transmitia não deixavam espaço para hesitação, estava frente a frente com o todo poderoso. A voz então, indescritível, parecia estremecer meu corpo enquanto falava.  

Convidou-me para passear. Uau! Quanta honra, passear com o Altíssimo.  Mas logo em seguida veio a confusão e o pavor. Será que morri e estou sendo levado? Para onde? Céu, inferno, purgatório? Não deu tempo de ficar angustiado, Ele imediatamente leu meus pensamentos e foi dizendo: “Fique tranquilo, meu filho, logo estará de volta, só quero lhe mostrar uma coisa”.


Mil perguntas começaram a inundar minha mente, mas como num passe de mágica, ou num sonho delirante, logo chegamos a um lugar belíssimo e nada mais me preocupava. Estava encantado, hipnotizado, fora de mim.  Sabe aquela imagem de uma cachoeira caindo num rio transparente, em suas margens um gramado impecável, árvores frutíferas, pássaros cantando e animais passeando livremente? Tudo em harmonia, nada de poluição; nem sonora, tampouco  visual, sequer  ambiental. Era como se estivesse olhando a paisagem que inspirou o pintor inglês Thomas Cole a retratar o Jardim do Éden.

Isto aqui é o paraíso? Perguntei. Estamos no paraíso? Repeti boquiaberto. “Não coloquei nome neste lugar, não me preocupo com rótulos”, Deus respondeu.  “Não pensei em nomes quando planejei o mundo, pensei em paz, harmonia, bondade, beleza.  Criei um lugar onde não haveria motivos para preocupação, a natureza forneceria tudo que precisassem: água, alimento, matéria prima. Nada faltaria e nada seria supérfluo. Um lar para crescerem, amarem e se multiplicarem em paz”. 
  
“Não criei este mundo para mim. Concebi este planeta para vocês, e fiz o meu melhor. Não medi esforços. Enquanto falava, a nuvem assumia a forma de grandes olhos, que pareciam entrar dentro dos meus. Difícil explicar.

“Prove isto”, disse-me enquanto arrancava uma fruta da árvore, agora em forma de uma boca sorrindo. “Não é aquilo que vocês chamaram de fruto da sabedoria, não serás castigado por comer. Não precisa lavar e pode engolir com a casca. Não te fará mal algum”. Era uma laranja deliciosa, com um sabor e um perfume que já nem lembrava mais, remetendo-me direto aos tempos de infância, onde subíamos nas árvores e comíamos laranja direto do pé.

Em seguida ofereceu-me um cacho de uvas brancas e disse que iria fazer uma revelação. Havia criado vários planetas alem do nosso.  Na terra colocou seres humanos, em outros, colocou criações mais evoluídas, em outros colocou apenas animais e em vários outros não criou vida, deixando-os desertos. As criaturas que receberam o dom de pensar ganharam de brinde o livre arbítrio, uma ferramenta para decidir entre o bem e o mal.

Nos planetas em que as criaturas pensavam, para cada conquista intelectual, estas mesmas criaturas descuidaram da natureza e delas mesmas. Devastaram florestas, promoveram guerras, desenvolveram e contemplaram a miséria passivamente, mentiram, poluíram, deprimiram, adoeceram.  Semelhantes ainda se agridem, combatem, matam e morrem por honra, poder, dinheiro, fé, e, até mesmo, sem motivo algum. Nada disso foi criado por Deus, tudo decorrente das escolhas do livre arbítrio.

Contou-me que em Marte havia vida efervescente, controlada por marcianos, uma espécie superdotada intelectualmente, mas emocionalmente muito frágil. Sua civilização se autodestruiu e deixou o planeta em penúria total. Nem água restou para sobreviverem.

Ofereceu-me mais uma fruta, desta vez um figo vermelho, reluzente de tão colorido. Não pude recusar, tinha forma, cheiro e sabor de natureza e não de pesticida, como estou habituado. Além disso, quem sou eu pra rejeitar uma benesse divina? Enquanto me deliciava com a fruta, continuou sua confidência, dizendo que comíamos produtos industrializados, vegetais com agrotóxicos, gorduras trans, carnes processadas, igualzinho aos marcianos no inicio de sua decadência. Depois eles passaram a ingerir pílulas em lugar de alimentos e, no final, passaram a comer uns aos outros.

Na cena seguinte, fui envolvido pela nuvem, como se estivesse dentro de seu útero. Senti  algo parecido com uma mão em minha cabeça e tive a nítida sensação de estar sendo abençoado. “Alimentação não é só comida. Também é o que você ouve, lê, vê. Não descuide daquilo que coloca dentro de seu corpo físico, mental e espiritual”, escutava e ao mesmo tempo lia a legenda. Parecia um filme dublado, só que as legendas eram em hebraico.

Estava na casa de Deus, em seu colo, protegido, feliz, fascinado. Um lugar perfeito, incomparável, impossível de descrever. Não queria mais voltar para a Terra. Dizem que enquanto não se conhece o inferno, o paraíso nunca será bom o suficiente. Estava alucinado com toda aquela grandeza impregnada de doçura e amabilidade. Queria saber mais, compreender mais.  Não consegui me segurar e, mesmo temendo a resposta, perguntei: “Deus, a Terra é um planeta ou é o lixo e o inferno de outros planetas”? Perguntei, mas não obtive resposta.

Acordei com o barulho irritante do despertador. Enfiei na boca um iogurte industrializado, um suco de laranja de caixinha e sai apressado para o trabalho. Não deu tempo de rezar nem de agradecer.

20 comentários:

  1. Dr Ildo! Que sonho bem lindo, deve ser muito bom sentir-se acolhido por Deus. Muito Bom! Parabéns! Beijos

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    1. Pena que não deu tempo de rezar, nem agradecer. Mas nunca é tarde. Belo texto. Parabéns. Rosane

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  2. Tudo depende de nossas escolhas e nossos propósitos. Algumas vezes poderá ser difícil, mas se começarmos as mudanças aos poucos teremos o direito ao Jardim do Édem. O sonho pode sim se transformar em realidade.

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  3. Será que foi sonho ou aviso?

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  4. Acho que o Dr.tomou um chazinho!

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  5. O Dr. Ildo e a Ministra Damares, ao meu ver, "frequentam" o mesmo pé de goiaba...

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    1. a goiaba do paraiso deve ter um sabor todo especial.

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  6. Sonhos são fantásticos...melhor é sonhar acordado! Bruno

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  7. Eu não sonho com Deus, converso com ele todos os dias. Carmen

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  8. Sera que é um chamado??

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  9. Não acredito em energia de pedras, Búzios, taro, ligueja, tudo linguagem fria. Acredito em Deus! Nunca sonhei com o Senhor, ficaria feliz! Rezo! Rudimar

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    1. Só acredito no Senhor! Ele é meu bom Pastor . Parece clichê .Não é Muito verdadeiro ! Marcia

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  10. Sr Ildo. O texto está extremamente bonito. Mas, o que lhe leva a pensar que você seria o escolhido para o encontro com o Senhor em vida. A resposta está óbvia! Basta ler sua página pessoal pensa e deve agir ( não lhe conheco) como um Semi Deus. A real você não é Semi Deus! Conselho: procure um bom terapeuta vai lhe fazer bem. A Realista.

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    1. Médico , louco e semi deuses todos temos um pouco. Abc

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  11. Bem sabemos que o Senhor acolhe a Todos, mas o cara achar que foi o escolhido. Bom ai já é demais !

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    1. Se quem sonha com Deus é considerado um semi-Deus ou o escolhido, quem sonha com mulheres será classificado como? Don Juan? E quem sonha com comida ou dinheiro vai ser considerado milionário ou chef de cozinha? Ainda bem que sonhar é livre e não custa nada, a não ser a inveja dos outros. A sonhadora

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    2. Ainda bem que sonhar com comida não engorda! Quem derá pudesse escolher meu sonho. Meu marido nem sonha o que faria, não com ele! Bom dia a todos!

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  12. Quem escolhe sua voz na terra não somos nós, é o Altissimo que tem este poder. E aparentemente, para os menos avisados, parece que escolhe os pouco capacitados (nascem em manjedouras, são encontrados boiando nos rios), mas quem somos nós pra dizer se alguém tem ou não este dom. Descrentes existem por toda a parte, donos da verdade idem, mas divino existe um só. Thanise Motta

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  13. “Certa noite, sonhei com o mapa do nosso Brasil chorar: O que houve, meu Brasil brasileiro? Perguntei-lhe! E ele, espreguiçando-se em seu berço esplêndido, esparramado e verdejante sobre a América do Sul, respondeu chorando, com suas lágrimas amazônicas:
    - Estou sofrendo. Vejam o que estão fazendo comigo... Antes, os meus bosques tinham mais flores e meu seio mais amores. Meu povo era heróico e os seus brados, retumbantes. O sol da liberdade era mais fúlgido e brilhava no céu a todo instante. Onde anda a liberdade, onde estão os braços fortes? Eu era a Pátria amada, idolatrada. Havia paz no futuro e glórias no passado. Nenhum filho meu fugia à luta. Eu era a terra adorada e dos filhos deste solo era a mãe gentil. Eu era gigante pela própria natureza, que hoje devastam e queimam, sem nenhum homem de coragem que às margens plácidas de algum riachinho, tenha a coragem de gritar mais alto para libertar-me desses novos tiranos que ousam roubar o verde louro de minha flâmula. Eu, não suportando as chorosas queixas do Brasil, fui para o jardim. Era noite e pude ver a imagem do Cruzeiro que resplandece no lábaro que o nosso país ostenta estrelado. Pensei... Conseguiremos salvar esse país sem braços fortes? Pensei mais.... Quem nos devolverá a grandeza que a Pátria nos traz? Voltei à sala, mas encontrei o mapa silencioso e mudo, como uma criança dormindo em seu berço esplêndido.”
    Autor desconhecido

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