terça-feira, 6 de outubro de 2026

Anestesiar não é curar

Quando alguém me diz que está com dor, eu acredito. 

Não preciso sentir a dor dela. Muito menos comparar com a dor que eu sentiria no mesmo lugar. Dor não tem régua.

Como anestesista, aprendi que duas pessoas podem receber o mesmo estimulo e contar histórias completamente diferentes sobre o que sentiram.

Por isso, quando alguém diz que está doendo, a primeira coisa que faço não é discutir a intensidade da dor. É acreditar. 

Depois tento ajudar. Mas nem sempre consigo.

Existem medicações muito eficazes. Podem tirar a dor, mas podem provocar náusea ou prurido. Então pergunto ao paciente se prefere ficar a dor conhecida ou o mal estar do remédio: dor ou náusea? dor ou coceira?

Geralmente a pessoa escolhe trocar um sofrimento familiar por outro hipotético que ainda não sentiu e que talvez nem aconteça. Mas, eventualmente, quando o efeito colateral aparece, ela me pede para voltar atrás e ficar com a dor que já conhece.

Eu tento. Nem sempre consigo. Porque aliviar o sintoma não é necessariamente tratar a doença.

E isso talvez seja uma das coisas mais difíceis da medicina: fazer tudo o que está ao nosso alcance e, ainda assim, não conseguir devolver ao outro aquilo que ele mais deseja.

Mas existe algo que nunca faço: não me acostumo com a dor do outro.

Vivemos cercados de escolhas que parecem ter apenas duas opções. Dor ou náusea. Dor ou coceira. Isso ou aquilo. Um lado ou outro. E às vezes, nenhuma das duas é realmente boa ou resolve totalmente o problema.

Troca-se o remédio. Troca-se o lado. Troca-se o discurso.

E, apesar das trocas, a dor permanece latejando. Talvez porque seja uma coisa muito humana preferir o sofrimento conhecido ao risco de uma solução incerta.

Eu continuo fazendo o que sei fazer. Escuto. Procuro a causa. Tento  o caminho de menos sofrimento. Mas há dores que, de tanto permanecerem, acabam parecendo normais. Por vezes, até convenientes. E quando a dor se torna normal, paramos de perguntar de onde ela veio.

Isso vale pra uma sala de cirurgia. E vale pra um país.

Às vezes, é mais fácil anestesiar um povo do que descobrir por que ainda dói.

 

 

 

 

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