Quando alguém me diz que está com dor, eu acredito.
Não preciso sentir a dor dela. Muito menos comparar com a dor que eu sentiria no mesmo lugar. Dor não tem régua.
Como anestesista, aprendi que duas pessoas podem receber o mesmo estimulo e contar histórias completamente diferentes sobre o que sentiram.
Por isso, quando alguém diz que está doendo, a primeira coisa que faço não é discutir a intensidade da dor. É acreditar.
Depois tento ajudar. Mas nem sempre consigo.
Existem medicações muito eficazes. Podem tirar a dor,
mas podem provocar náusea ou prurido. Então pergunto ao paciente se prefere
ficar a dor conhecida ou o mal estar do remédio: dor ou náusea? dor ou coceira?
Geralmente a pessoa escolhe trocar um sofrimento familiar
por outro hipotético que ainda não sentiu e que talvez nem aconteça. Mas,
eventualmente, quando o efeito colateral aparece, ela me pede para voltar atrás
e ficar com a dor que já conhece.
Eu tento. Nem sempre consigo. Porque aliviar o sintoma
não é necessariamente tratar a doença.
E isso talvez seja uma das coisas mais difíceis da
medicina: fazer tudo o que está ao nosso alcance e, ainda assim, não conseguir
devolver ao outro aquilo que ele mais deseja.
Mas existe algo que nunca faço: não me acostumo com a
dor do outro.
Vivemos cercados de escolhas que parecem ter apenas
duas opções. Dor ou náusea. Dor ou coceira. Isso ou aquilo. Um lado ou outro. E
às vezes, nenhuma das duas é realmente boa ou resolve totalmente o problema.
Troca-se o remédio. Troca-se o lado. Troca-se o
discurso.
E, apesar das trocas, a dor permanece latejando. Talvez
porque seja uma coisa muito humana preferir o sofrimento conhecido ao risco de
uma solução incerta.
Eu continuo fazendo o que sei fazer. Escuto. Procuro a
causa. Tento o caminho de menos
sofrimento. Mas há dores que, de tanto permanecerem, acabam parecendo normais.
Por vezes, até convenientes. E quando a dor se torna normal, paramos de
perguntar de onde ela veio.
Isso
vale pra uma sala de cirurgia. E vale pra um país.
Às vezes, é mais fácil anestesiar um povo do que
descobrir por que ainda dói.
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