Existe uma contradição curiosa na vida.
Quando
uma mulher engravida, começa logo a se preparar para a chegada daquela criança.
Escolhe o nome, faz exames, compra as roupinhas, organiza o quarto, a mala da
maternidade. Imagina o rosto, os primeiros passos, o futuro.
São
nove meses se preparando para alguém que vai chegar.
Mas
existe outro momento da vida que também merece preparo. E quase ninguém
prepara.
O
envelhecimento, a doença, o fim.
Eu
sou médico. Já estive em muitos quartos de hospital. Já vi filhos paralisados no
corredor, diante da decisão mais difícil sobre a vida dos pais, se perguntando:
“Será que estou fazendo certo? Será que ele ia querer isso?”
E muitas vezes a resposta não existia. Ninguém sabia. Ninguém havia perguntado.
.E
existe o outro lado, o de quem está na cama. Gente cercada de enfermeiros,
lençóis limpos, bandejas, medicamentos, aparelhos apitando.
Gente
que, durante décadas, cuidou dos filhos, resolveu problemas, sustentou
famílias, tomou decisões. E que agora espera uma visita, olha para a porta,
consulta o relógio, escuta passos no
corredor.
Espera
a visita do filho que está trabalhando.
Os amigos que sumiram. O médico que fica cinco minutos e desaparece.
Às vezes, o que mais deseja não é um
medicamento diferente. É ouvir uma voz conhecida perguntando como foi a noite.
Nem
sempre o sofrimento mais difícil de suportar é aquele que aparece nos exames.
Às vezes, é o medo de depender. De
perder a autonomia. De precisar de cuidados e se sentir sozinho.
Ninguém
gosta de admitir que um dia possa precisar de ajuda para tomar banho, caminhar,
lembrar o nome de alguém ou simplesmente atravessar uma noite difícil.
A
gente acha que isso tudo ainda está muito longe. Mas a vida não nos dá
garantias.
E eu, como médico, quero te dizer uma coisa:
Precisar
de ajuda não é uma vergonha, não nos torna menos importantes. Não apaga nossa
história. Não diminui o amor que merecemos receber.
Conversar
sobre envelhecer não precisa ser um assunto triste. Pode ser um gesto de
carinho. É uma conversa difícil, mas é infinitamente mais leve do que a dúvida
que fica depois.
Porque
pode chegar um momento em que a decisão mais importante da nossa vida esteja
nas mãos de outra pessoa.
O
que parece suportável para uma pessoa pode ser insuportável para outra. E ninguém
deveria precisar adivinhar isso no meio de uma emergência, às três da manhã,
com a vida de quem ama nas mãos.
Mas,
depois de tantos anos convivendo com a fragilidade humana, uma pergunta
continua me acompanhando:
Nós nos preparamos tanto para a chegada de
um filho. Por que temos tanta dificuldade em conversar sobre o tempo em que
talvez sejamos nós a precisar de colo?
Talvez o amor também seja isso: não deixar
para quem fica a responsabilidade de adivinhar o que nunca tivemos coragem de
dizer.
Não
tenho resposta nem conselhos para tudo isso. Desconfio, aliás, de quem tenha.
Também
não sei quando essa conversa deve acontecer. Só sei que, às vezes, ela precisa
começar muito antes de um hospital, de uma emergência ou de uma despedida.
Talvez
essa seja uma das conversas mais importantes que ainda estamos adiando.
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