sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Cuidados paliativos

Existe uma contradição curiosa na vida.

Quando uma mulher engravida, começa logo a se preparar para a chegada daquela criança. Escolhe o nome, faz exames, compra as roupinhas, organiza o quarto, a mala da maternidade. Imagina o rosto, os primeiros passos, o futuro.

São nove meses se preparando para alguém que vai chegar.

Mas existe outro momento da vida que também merece preparo. E quase ninguém prepara.

O envelhecimento, a doença, o fim.

Eu sou médico. Já estive em muitos quartos de hospital. Já vi filhos paralisados no corredor, diante da decisão mais difícil sobre a vida dos pais, se perguntando: “Será que estou fazendo certo? Será que ele ia querer isso?”

E muitas vezes a resposta não existia. Ninguém sabia. Ninguém havia perguntado.

.E existe o outro lado, o de quem está na cama. Gente cercada de enfermeiros, lençóis limpos, bandejas, medicamentos, aparelhos apitando.

Gente que, durante décadas, cuidou dos filhos, resolveu problemas, sustentou famílias, tomou decisões. E que agora espera uma visita, olha para a porta, consulta o relógio,  escuta passos no corredor.

Espera a visita  do filho que está trabalhando. Os amigos que sumiram. O médico que fica cinco minutos e desaparece. Às vezes, o que mais deseja não é um medicamento diferente. É ouvir uma voz conhecida perguntando como foi a noite.

Nem sempre o sofrimento mais difícil de suportar é aquele que aparece nos exames. Às vezes, é o medo de depender.  De perder a autonomia. De precisar de cuidados e se sentir sozinho.

Ninguém gosta de admitir que um dia possa precisar de ajuda para tomar banho, caminhar, lembrar o nome de alguém ou simplesmente atravessar uma noite difícil.

A gente acha que isso tudo ainda está muito longe. Mas a vida não nos dá garantias.

E eu, como médico,  quero te dizer uma coisa:

Precisar de ajuda não é uma vergonha, não nos torna menos importantes. Não apaga nossa história. Não diminui o amor que merecemos receber.

Conversar sobre envelhecer não precisa ser um assunto triste. Pode ser um gesto de carinho. É uma conversa difícil, mas é infinitamente mais leve do que a dúvida que fica depois.

Porque pode chegar um momento em que a decisão mais importante da nossa vida esteja nas mãos de outra pessoa.

O que parece suportável para uma pessoa pode ser insuportável para outra. E ninguém deveria precisar adivinhar isso no meio de uma emergência, às três da manhã, com a vida de quem ama nas mãos.

Mas, depois de tantos anos convivendo com a fragilidade humana, uma pergunta continua me acompanhando:

Nós nos preparamos tanto para a chegada de um filho. Por que temos tanta dificuldade em conversar sobre o tempo em que talvez sejamos nós a precisar de colo?

Talvez o amor também seja isso: não deixar para quem fica a responsabilidade de adivinhar o que nunca tivemos coragem de dizer.

Não tenho resposta nem conselhos para tudo isso. Desconfio, aliás, de quem tenha.

Também não sei quando essa conversa deve acontecer. Só sei que, às vezes, ela precisa começar muito antes de um hospital, de uma emergência ou de uma despedida.

Talvez essa seja uma das conversas mais importantes que ainda estamos adiando.

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