quinta-feira, 15 de abril de 2021
quinta-feira, 1 de abril de 2021
Quem viver, verá
Quando iniciou a pandemia, me propus a escrever um ou dois artigos mensais sobre o tema. Minha ideia não era fazer um relato histórico do ponto de vista médico sanitário ou político. Isto é assunto para historiadores. Queria falar sobre o lado psicológico, os sentimentos gerados pela ameaça de contaminação e como as pessoas estavam reagindo frente ao isolamento social.
Uma das dúvidas que me afligia era se a humanidade iria crescer ética e espiritualmente e se teríamos uma consciência de mundo melhor ao final da pandemia. Não tenho uma resposta definitiva. A peste ainda não terminou, continuamos cada vez mais enrolados nesta balbúrdia. No entanto, passado mais de um ano de observações, algumas pistas puderam ser observadas.
segunda-feira, 15 de março de 2021
Morreu feliz para sempre
No instante em que a pessoa recebe o diagnóstico de uma doença
terminal, ela começa a morrer. Se você pensa assim, talvez contando a história
de Miguel, possa lhe mostrar que é possível acontecer exatamente o contrário,
nascer neste momento fatídico e passar a viver o melhor e o pior de si. Não é
preciso mais representar um personagem, não há mais tempo e importância para
isso. A proximidade da morte abre espaço para um estado de humanidade jamais
antes experimentado.
Ao realizar seu check-up de rotina anual, Miguel descobriu um
exame alterado. Parecia estar com a saúde perfeita, mas aquele número estampado
no papel do laboratório contradizia sua energia e higidez. Os médicos lhe deram
seis meses de vida. Não se revoltou, não pensou que o exame estava errado, não
achou que estava sendo punido, não se considerou azarado, não se culpou, aceitou
a possibilidade iminente de morte, evitou negar os prognósticos médicos e, ao
invés de morrer, passou a viver um luto antecipado.
Vou explicar. Foi descrito em 1944 um fenômeno que acontecia com esposas de soldados que iam para a guerra. Saber que talvez eles não voltassem, acionava um sentimento de perda e todas as consequências emocionais decorrentes. Batizaram esta situação de luto antecipatório.
segunda-feira, 1 de março de 2021
Sua casa é um lar?
Imagine um
lugar onde não exista o perigo de contaminação com o coronavirus. Todos podem
se tocar, abraçar, beijar, sem medo de adoecer. Seria bom, não é? Seria ótimo. Melhor
ainda se todas as pessoas fossem saudáveis, nada de doenças. Este deve ser o
sonho de consumo atual de toda humanidade.
Pois é, ficaria
melhor ainda se, além disso, as pessoas não precisassem se envolver com política,
governo, mandos, desmandos, arbitrariedades, fake news, impostos. Talvez não se
envolver não seja a expressão mais adequada, as pessoas não precisariam tomar
conhecimento daquilo que acontece fora de suas casas, simplesmente
alienar-se-iam dos atos governamentais e tocariam suas vidas.
Já que sonhar não custa, imaginemos também comida, bebida, música, diversão, piscina, academia de ginástica, festas. Tudo do bom e do melhor. Em tese, estes seriam os ingredientes para uma vida feliz. O que mais poderia estar faltando? Telefone celular e internet podem facilitar ou atrapalhar, aproximar ou afastar, então, por via das dúvidas, seriam retirados de circulação. Nesses casos, menos pode ser mais.
domingo, 14 de fevereiro de 2021
Na cama de outro
Um pouco antes
de iniciar a pandemia, um amigo me procurou pedindo ajuda. Estava tendo um caso
extraconjugal e foi descoberto pela esposa. Confusão formada, separação
iminente. Arrependido, não sabia mais o
que fazer, não queria se separar, já havia implorado o perdão, no entanto o
clima não estava nada favorável. Magoada, a esposa pediu que ele saísse de
casa.
Conversei
algumas vezes com o casal tentando ajudá-los. Devido à quarentena, houve certa
dificuldade para ele encontrar um lugar onde morar de imediato, então foi
ficando. Ele dormindo na sala, ela no quarto. Entreguei a eles um texto e pedi
que lessem juntos, se possível à noite, bebendo um bom vinho tinto e depois
fossem dormir. Não era necessário discutir o assunto, apenas ler. Estranharam o pedido, mas não recusaram.
Ontem recebi um vídeo onde ele a pedia em casamento pela segunda vez. Ela aceitou. Ambos estavam abraçados, chorando e sorrindo de felicidade. Autorizaram-me a publicar o texto no intuito de quem sabe ajudar algum outro casal que possa vir a passar pela mesma situação. Então ai vai: