domingo, 11 de novembro de 2018

Deixa-me calar-te com um beijo


A palavra mais utilizada da língua portuguesa deve ser o "porque".

O ser humano precisa de uma explicação lógica para quase tudo, e o “porque” é a ferramenta predileta para esclarecimentos, seja perguntando ou respondendo.  Se a resposta iniciar com um belo “porque”, metade do trabalho já está pronto, nem precisa esclarecer direito.  Existindo um “porque”, por mais absurdo e sem sentido que seja, a coerência parece refeita. O “porque”, por si só,  tem o poder intrínseco de acalmar o interlocutor.
Por que o voo está atrasado? Porque o avião precisou fazer uma revisão nas turbinas. A atendente do balcão responde e o passageiro se satisfaz com a explicação, que justifica o atraso, mas não resolve o problema.  Segundo Nietzsche, precisa existir um “porque” e então a gente aguenta qualquer “como”.
 O problema é que quase nunca existe um único “porquê” ou um “porquê” definitivo para determinada situação. Geralmente respondemos com o “porque” mais instantâneo  ou desenvolvemos  uma explicação conforme a vontade do freguês.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Perdoar é a melhor vingança


Era um churrasco entre amigos, parceiros há mais de dez anos. Não havia estranhos, um jantar informal de confraternização. Enquanto a carne assava, bebíamos, conversávamos, contávamos piadas, recordávamos aventuras e desventuras vividas conjuntamente ao longo da vida. Lá pelas tantas, fiz uma brincadeira inocente com a filha de um amigo. Disse a ela que talvez ficasse solteira por toda a vida, pois ninguém aguentaria um sogro como seu pai.

Na hora não percebi, mas meu amigo ficou muito chateado. No outro dia, comentou com a esposa que eu havia sido infeliz na brincadeira e não levaria adiante nossa amizade, pois era inadmissível alguém zombar de sua filha e ridicularizá-lo.

Logo que soube, apressei-me em fazer contato e pedir desculpas. Expliquei que talvez tivesse me excedido um pouco no deboche, mas se o fiz, foi por considerá-lo um grande amigo que não se importaria com o gracejo. Jamais imaginaria que aquilo poderia aborrecê-lo tanto e perturbar nossa amizade.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

As quatro mulheres de um homem




imaginário masculino sonha com mulheres lindas, corpos esculturais, sempre disponíveis, felizes, satisfeitas, que os amem, admirem e façam tudo por eles, inclusive filhos. Pode haver uma ou outra variação, aqui ou ali, mas, onde se escondem estas criaturas?

Em uma roda de amigos, Gilmar relatava animadamente, em tom quase professoral, o que buscava em uma mulher, como e onde encontrar. Basicamente, quatro características lhe eram determinantes.

- deveria ser uma mãe para ele. Cuidar de sua roupa, alimentação, moradia, amando-o incondicionalmente e perdoando suas gafes e pisadas na bola.
- deveria ser uma sedutora voraz, realizando todas suas fantasias sexuais.
- deveria ter uma cultura colossal, uma sabedoria oriental e uma memória de elefante, para que pudesse admirar e sorver seus conhecimentos.
- deveria ser uma amiga, parceira, companheira, assistir futebol, beber cerveja, gostar de balada, mas acima de tudo, estar junto com ele para o que der e vier.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Eu te amo. Ao vivo, dublado ou com legendas?

Existem várias maneiras de dizer a mesma coisa. Algumas chegam a ser um disparate de tão incompreensíveis, mas se incorporam rapidamente ao linguajar popular, e, teoricamente, não fazem mal a ninguém, a não ser a gramática portuguesa, “Foi mal“ virou um pedido de desculpa, “valeu” agora é uma forma de agradecimento, “vazar” quer dizer ir embora.

Mas nem tudo está perdido, existem palavras que quando bem colocadas no lugar de outras, podem salvar relacionamentos, contratos e até mesmo vidas. Ao invés de falarmos em autoridade, fica mais elegante substituirmos por liderança. No lugar de irritante, usaremos persistente. Trocar a condição de dramática por emotiva faz toda a diferença. Fofoqueiro pode ser amenizado pela expressão bem informado.

Com base nesta proposta, resolvi brincar e escrever um sentimento de 100 maneiras diferentes. Nem sempre se consegue expressar com palavras aquilo que se pensa ou sente. Talvez meu dicionário sentimental auxiliasse alguém em momento de desespero ou desesperança. Quem sabe eu poderia dar voz aos corações e mentes emudecidos. Por que não?

Procurei então uma das expressões mais utilizadas na vida: “eu te amo”, e comecei a escrever variações. Depois de algumas tentativas, fiquei confuso e confesso, mudei meu entendimento. Dizer “eu te amo” não é tão simples assim.

terça-feira, 3 de julho de 2018

Quando todos julgam, ninguém é inocente

Troquei os nomes para não comprometer, mas a história é verídica.

Pedro (21) e Ana (18) conheceram-se no verão em Atlântida. Foi numa daquelas baladas que iniciam depois da meia noite e só terminam ao amanhecer. Ele se aproximou, ela não se afastou. Ele pegou sua mão, ela não retirou. Ele chegou mais perto, ela o beijou. Não se soltaram mais. Um só tinha olhos para o outro. Fizeram mil planos, realizaram quinhentos, refizeram duzentos, esqueceram os outros trezentos. Não importa, estavam felizes.

Um destes planos era uma viagem no mês de julho para Porto de Galinhas, Pernambuco. Queriam escapar do frio no inverno gaúcho. Economizaram, utilizaram pontos para comprar a passagem aérea, reservaram uma pousada perto do mar e partiram para uma lua de mel de quinze dias.

Foi a viagem dos sonhos, voltaram ainda mais apaixonados. Ficaram especialmente encantados com um passeio de jangada que percorria um mangue até chegar a um parque ecológico onde existe uma área de preservação de cavalos marinhos. Puderam observar e até mesmo tocar os pequenos animais.

Ficaram sabendo que cavalos marinhos só se relacionam sexualmente com um parceiro por toda a vida. Quando um dos dois morre, o outro se isola e fica solitário até morrer também. Além de escolherem um único parceiro, nessa espécie é o macho quem engravida, possuindo uma bolsa incubadora onde carrega os ovos depositados pela fêmea. Alguns estudos em cativeiro desmentem a fidelidade dos cavalos marinhos, mas isto também pouco importa.