quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Nossos "eu te amo" precisam se encontrar

 

Quando completamos dois meses de namoro, sem aviso, sem ensaio, ela me beijou, e a frase veio junto:

— Eu te amo.

Pedi que repetisse. Ela repetiu, com a voz mais doce ainda, quase um sopro. Pedi mais uma vez. Ela caprichou, como se afinasse um instrumento que já soava bem. Colocou intenção, olhou no fundo dos meus olhos. O som era lindo. Devolvi o beijo ainda com aquelas palavras ecoando na minha boca.

Mas acontece que sou um caçador de significados.  Então fiz o que sempre faço quando algo importante aparece sem manual: perguntei o que exatamente queria dizer “eu te amo” no dicionário dela.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Votos de casamento

 

Ela ia casar em poucos dias e nada a afligia tanto quanto os votos. O vestido estava pronto, a festa encaminhada, a lista de convidados sofria ajustes mínimos, quase burocráticos. Mas os votos. Os votos eram um abismo.

Como caber em dois minutos aquilo que levou anos para se tornar realidade?
Como resumir em frases um amor que só fez sentido no tempo?

Tentou escrever sozinha. Abriu documentos, fechou. Escreveu frases que soavam grandes demais, outras pequenas demais. Tudo parecia ou exagerado ou raso. Na madrugada, tomada por uma angústia prática e moderna, fez o que quase todo mundo faz quando não sabe por onde começar. Pediu ajuda à inteligência artificial.

A resposta veio em segundos. Educada e eficiente. Entregou votos prontos, limpos, bem organizados, impecáveis na superfície.

“Prometo te apoiar em todos os desafios da vida.”
“Prometo ser sua parceira nos momentos bons e ruins.”
“Prometo crescer ao seu lado e construir um futuro juntos.”

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Como terminar uma amizade

 

Eles não eram irmãos de sangue.
Mas viveram a vida como se fossem.

Dividiram escola, segredos, famílias, festas, lutos, décadas.
Quarenta anos juntos não se explicam, mas também não se ignoram.  Se acumulam nos ossos.

A amizade não acabou por falta de história.
Nem por dinheiro.
Nem por mulher.
Nem por palavra atravessada.

Acabou por ideias.

Não por uma discussão específica, mas pelo desgaste de não poder discutir.
Pelo esforço de calar para não ferir.
Pelo medo de falar e perder.

De tanto ser guardado, o silêncio mofou. Apodreceu.

Cada encontro virou um campo minado.
O que era troca virou cálculo.
Política, fé, visão de mundo deixaram de ser assunto de conversa e viraram identidade.
E identidade não se negocia.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

A frase perfeita é a que se vive, não a que se escreve


Escrever não é fácil. Às vezes passo uma tarde inteira tentando lapidar uma única frase, procurando o ritmo certo, a palavra que falta, o tom que faz tudo ganhar sentido. E, mesmo assim, muitas vezes o resultado não me convence.

Reescrevo. Corto. Recomeço do zero. São tardes e noites inteiras entregues às palavras. Escrever é assim: um exercício de paciência, solidão e entrega, onde o tempo deixa de ser cronológico e passa a ser interior.

Mas, nessa dedicação quase obsessiva às palavras, fui perdendo o mundo fora delas. Troquei cafés por capítulos, abraços por parágrafos, pessoas por páginas.  A vida foi ficando silenciosa, só eu e o ruído seco das teclas.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

A graça da pescaria não é o peixe

 

Houve uma época em que decidi aprender a pescar. Não sei explicar o motivo — talvez fosse só uma vontade de ficar sozinho, de silêncio, de desacelerar, ou só um capricho de fim de semana.

Comprei um livro chamado “Tudo sobre Pescaria” e outro chamado “Pescar é esperar”, porque é claro, que eu iria começar pelos livros.  Devorei-os em uma semana.  Pesquisei vídeos no YouTube,  comprei vara, anzol, isca, boné, tudo. Me achava o mestre da pesca, na teoria sabia tudo.

Disseram-me que havia um bom rio na cidade de Viamão. Num domingo ensolarado, peguei minhas coisas, e fui até lá. Escolhi uma árvore com sombra, sentei ali e joguei o anzol. A ideia era simples: esperar, como o livro dizia: Pescar é esperar

E eu esperei. Nada aconteceu. Nenhum peixe, nenhuma fisgada. Mas enquanto nada acontecia, comecei a filosofar (óbvio).
Me veio aquela frase que talvez vocês conheçam: "O homem não se banha duas vezes no mesmo rio" , o rio muda, o homem muda...

A água passava, as folhas boiando, a correnteza seguindo, o tempo passando, e eu ficava ali, meio peixe fora d’água.