sexta-feira, 3 de abril de 2026

Casamento na guerra para acabar com a guerra

 

Meus queridos... Olhem ao redor.

Há poucos meses atrás, tudo isso era diferente. Estávamos desenhando o “grande dia” de vocês, planejando cada detalhe com tanto carinho. A música da entrada, as flores, as mesas, os brindes. Era para ser uma celebração sob o céu, rodeada de gente, de luz, de festa.

E então veio a guerra. Sirenes. Correria. O céu, que deveria testemunhar o amor de vocês, foi riscado por aquilo que nunca deveria existir. O mundo tentando, de todas as formas, interromper histórias como a de vocês.  E, por um momento, pareceu que o amor de vocês teria que esperar.

Mas a tradição judaica diz que não se suspende um casamento. E não é por teimosia — é por sabedoria. Porque quando duas almas se reconhecem e dizem “é você”, isso não pode depender da calmaria do lado de fora. O amor verdadeiro não espera o silêncio das sirenes. Não é o mundo que determina o amor, são vocês.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Uma guerra nunca silencia


Em uma guerra todos perdem. Sempre. Perdem-se vidas, casas, argumentos, paz.  Mas não é só o que explode que se perde. Há perdas que não fazem barulho algum, e talvez sejam as mais cruéis.  Elas acontecem no silêncio entre uma sirene e outra.

Em Israel, o amor não teve escolha, não pode esperar por tempos melhores, precisou aprender a sobreviver entre bombas. Sirenes tocando sem parar, mísseis sendo interceptados, famílias correndo para o bunker. Como isso tudo atinge o amor?

Curiosamente, para o amor, o momento mais difícil não é o ataque.  É o perigo do silêncio que vem depois. O tempo numa guerra é medido em segundos de corrida  e explosões e horas intermináveis de silêncio.

Quando a sirene se cala lá fora, as pessoas voltam para casa, varrem o que sobrou do dia, recolhem fragmentos de vidro e de si mesmas, mas algo continua tocando forte, sem parar, só que por dentro. O som daí da rua e entra no corpo, que permanece em alerta, esperando o próximo impacto e tentando entender o que aconteceu. E muitas vezes não consegue.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Felicidade em tempos de Guerra

 

Há lugares onde a vida não pede licença para continuar. Ela simplesmente arromba a porta. Em Israel, por exemplo, a existência aprendeu a caminhar com um ouvido no riso e outro na sirene.

Não pretendo falar de geopolítica. Vou focar em pessoas, cafés, festas e sirenes.  Em épocas de guerra e até mesmo fora delas, sirenes interrompem jantares, reuniões, conversas, avisando do perigo de uma explosão.  O mundo não acaba por isso, ele só troca de endereço por alguns minutos.

Em cidades como Tel Aviv ou Jerusalém, há protocolos quase coreografados. Ao som do alerta, as pessoas se movem com uma precisão que não veio da disciplina, mas da repetição. Quinze segundos. Trinta, se a sorte estiver de bom humor, o tempo máximo para alcançar o bunker mais próximo.

Não é  uma possibilidade abstrata, é um endereço conhecido. Quase uma extensão da sala de estar, o lugar onde o vizinho de pijama encontra a moça do marketing que ainda segura sua taça de vinho.

E, ainda assim, a vida ali não tem cara de pausa.

quarta-feira, 11 de março de 2026

Meninas perigosas

 

Enquanto você lê estas palavras em segurança, mulheres em Teerã arriscam a vida queimando véus em praça pública. O que começou como um protesto em um país distante virou um grito impossível de ignorar. Não é só sobre o Irã. É a voz de uma geração que cansou de ter o destino escrito por mãos que não as suas. Mulheres finalmente decidiram que não precisam de permissão para existir, muito menos ocupar o mundo.

Durante séculos o roteiro para as meninas era simples e previsível: ser princesa. Vestido rosa impecável, cabelo perfeito, voz contida. Lindas, delicadas, prendadas, bondosas, educadas, e silenciosas. Não eram protagonistas, eram decorações à espera de um resgate.

A história acontecia ao redor delas, não por causa delas. Objetivo final? Ser escolhida.  O beijo, o altar, o casamento e o felizes para sempre, que na verdade era apenas o fechamento elegante de outra jaula dourada.

Mas alguma coisa mudou, o roteiro rasgou.  As princesas estão se transformando. As meninas ainda gostam da coroa, ela não sumiu, continua lá brilhando, fascinando, prometendo magia.  Mas começou a ficar apertada demais para uma cabeça que está crescendo, pensando e questionando.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Maturidade

 

Antigamente parecia simples. Havia duas colunas invisíveis sustentando o mundo: de um lado isto, do outro aquilo. Preto ou branco.  Masculino ou feminino. Direita ou esquerda. Crente ou não crente. Bastava olhar a placa, escolher a fila, seguir adiante. Hoje, essas placas caíram no chão. Algumas viraram poeira, outras foram reaproveitadas e viraram grafite em muros urbanos, setas apontando para todos os lados. O que antes orientava, agora confunde.

Não se separa mais pessoas por sexo ou gênero com a mesma convicção. As palavras continuam existindo no dicionário, mas já não dão conta da complexidade humana. Há quem atravesse essas fronteiras como quem troca de calçada, há quem more exatamente no meio da rua. O que antes era uma linha nítida virou campo aberto.

Também não dá mais para dividir o mundo entre direita e esquerda, como se fosse um jogo de pingue-pongue ideológico. Surgiram zonas cinzentas, híbridas, escorregadias. Centro-direita, centro-esquerda, comunista que flerta com a direita, direita que jura ser social. Discursos se contradizem sem constrangimento.

A religião também seguiu o mesmo caminho, virou quase um estado de espírito customizável. Alguém se diz católico, mas só entra na igreja em casamentos. Outro se declara judeu por herança, mas nunca abriu um livro sagrado. Há evangélicos que nunca oram, ateus cheios de fé, místicos que não sabem explicar em quê acreditam. Deus, quando aparece, não está mais no púlpito.

Havia uma fronteira entre trabalho e descanso. O expediente terminava, batia-se o ponto no final da tarde e o trabalho ficava para o dia seguinte. Hoje, o escritório cabe no bolso. Trabalha-se na mesa de jantar, descansa-se respondendo e-mail. A noção de descanso como algo sagrado e protegido ficou para trás, ninguém sabe direito se está vivendo a própria vida ou apenas mantendo o sistema em pé.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Nossos "eu te amo" precisam se encontrar

 

Quando completamos dois meses de namoro, sem aviso, sem ensaio, ela me beijou, e a frase veio junto:

— Eu te amo.

Pedi que repetisse. Ela repetiu, com a voz mais doce ainda, quase um sopro. Pedi mais uma vez. Ela caprichou, como se afinasse um instrumento que já soava bem. Colocou intenção, olhou no fundo dos meus olhos. O som era lindo. Devolvi o beijo ainda com aquelas palavras ecoando na minha boca.

Mas acontece que sou um caçador de significados.  Então fiz o que sempre faço quando algo importante aparece sem manual: perguntei o que exatamente queria dizer “eu te amo” no dicionário dela.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Votos de casamento

 

Ela ia casar em poucos dias e nada a afligia tanto quanto os votos. O vestido estava pronto, a festa encaminhada, a lista de convidados sofria ajustes mínimos, quase burocráticos. Mas os votos. Os votos eram um abismo.

Como caber em dois minutos aquilo que levou anos para se tornar realidade?
Como resumir em frases um amor que só fez sentido no tempo?

Tentou escrever sozinha. Abriu documentos, fechou. Escreveu frases que soavam grandes demais, outras pequenas demais. Tudo parecia ou exagerado ou raso. Na madrugada, tomada por uma angústia prática e moderna, fez o que quase todo mundo faz quando não sabe por onde começar. Pediu ajuda à inteligência artificial.

A resposta veio em segundos. Educada e eficiente. Entregou votos prontos, limpos, bem organizados, impecáveis na superfície.

“Prometo te apoiar em todos os desafios da vida.”
“Prometo ser sua parceira nos momentos bons e ruins.”
“Prometo crescer ao seu lado e construir um futuro juntos.”

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Como terminar uma amizade

 

Eles não eram irmãos de sangue.
Mas viveram a vida como se fossem.

Dividiram escola, segredos, famílias, festas, lutos, décadas.
Quarenta anos juntos não se explicam, mas também não se ignoram.  Se acumulam nos ossos.

A amizade não acabou por falta de história.
Nem por dinheiro.
Nem por mulher.
Nem por palavra atravessada.

Acabou por ideias.

Não por uma discussão específica, mas pelo desgaste de não poder discutir.
Pelo esforço de calar para não ferir.
Pelo medo de falar e perder.

De tanto ser guardado, o silêncio mofou. Apodreceu.

Cada encontro virou um campo minado.
O que era troca virou cálculo.
Política, fé, visão de mundo deixaram de ser assunto de conversa e viraram identidade.
E identidade não se negocia.