sexta-feira, 7 de junho de 2019

O acaso vai nos proteger


Eventos aparentemente aleatórios e inconsequentes podem levar a grandes prejuízos. O simples bater de asas de uma borboleta na Amazônia pode causar um tufão no Texas. Da mesma forma, uma xícara de café que foi tomada pela manhã, pode alterar a vida de uma pessoa. Por exemplo, se o tempo que o indivíduo demorar tomando o café fizer com que ele se atrase e cruze com a mulher de sua vida na estação de metrô, ou não seja atropelado por um carro que atravessou o sinal vermelho, estamos frente a esta relação de casualidade.

No filme “O efeito Borboleta”, realizado em 2004, um jovem de 20 anos descobre que é capaz de viajar no tempo e mudar o passado. Decide então mudar a trajetória de sua vida e de amigos próximos corrigindo falhas cometidas lá atrás. Na tentativa de alterar a direção de suas escolhas, acaba criando futuros ainda mais desastrosos. Mesmo com boas intenções, a mínima mudança na linha do tempo dos fatos, pode levar a consequências imprevisíveis.

O que teria acontecido se na minha adolescência, tivesse declarado pessoalmente meu amor para aquela colega de aula, a mais bonita da turma, e iniciássemos um namoro? Talvez hoje, os filhos dela seriam os meus e o meu filho seria de outro homem qualquer.


Quando estava no sexto ano da faculdade de medicina, precisava escolher uma especialidade para me diferenciar e crescer profissionalmente. Havia um leque de opções: ginecologia, cirurgia, oftalmologia, psiquiatria, radiologia. Poderia abraçar qualquer uma, escolhi anestesia.

A escolha foi aleatória. Não pensei em mercado de trabalho, ganho profissional, plantões. Achava interessante a ideia de poder fazer as pessoas dormir e acordar, aliviar a dor física, controlar os sinais vitais. Sentia-me poderoso com as ferramentas anestésicas. Ninguém me aconselhou ou apadrinhou, simplesmente fiz um “X” na opção anestesia e ingressei na residência médica.

Se aqueles dois risquinhos de caneta entrecruzados do “X” houvessem sido feitos em outra opção, por engano ou conscientemente, muito em minha vida poderia ter sido diferente. A começar pela cidade onde vivo. Poderia ter escolhido outro país para estudar, quem sabe neste meio tempo conhecesse alguma estudante por lá, possivelmente teríamos casado e estaríamos até hoje morando em outra cidade.

Do ponto de vista filosófico, também minha mente poderia ser outra. Foi através de um acaso que entrei em contato a filosofia clinica e a partir dali incrementei os estudos até o dia de hoje. Quem sabe nem filosofia estivesse estudado?

Fernando Pessoa escreveu uma poesia em que diz:
Se em certa altura tivesse voltado para a esquerda em vez da direita;
Se tivesse dito sim em vez de não ou não em vez de sim;
Se em certa conversa tivesse dito as frases que só agora, no meio do sono elaboro,
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro seria insensivelmente outro também.


Einstein achava que viagens no tempo são possíveis, porque o espaço é curvo e deve haver algum ponto no infinito em que ele se encontra consigo mesmo. O cosmo seria como uma cobra mordendo a própria cauda, motivo pelo qual alguns filósofos utilizavam o símbolo de uma serpente mordendo a cauda para representar o ciclo da energia universal que nunca se esgota, pois se alimenta de si mesma.
 
Hawking também disse acreditar nessa possibilidade, mas sob certas condições. Ele diz que se pudéssemos voltar ao passado, não poderíamos interferir na História, porque ela é feita de atos que se despregam dos seus executores tão logo são realizados. Os personagens passam, a história fica. Assim acontece com os quadros de um pintor, as estátuas de um escultor, os textos de um escritor.

É confortador saber que nossos atos despregam-se de nós tão logo são produzidos. Seria extremamente difícil ter que carregar cada ato para o momento seguinte. Chegaria o dia em que o peso ficaria tão grande que não conseguiríamos dar um único passo adiante. Nossos atos são como setas lançadas de um arco em direção a um alvo. Nem sempre os atingem, mas jamais voltam ao arco para serem lançadas novamente. Resta-nos apenas administrar suas consequências.

Ao que sabemos hoje, o passado não retornará e o futuro é uma incógnita. Mesmo que conseguíssemos voltar ao passado, como desejava o personagem do filme, as condições ambientais seriam diferentes em cada momento do tempo. Assim, quando a borboleta batesse as asas de novo na floresta amazônica, as coisas no universo já estariam diferentes e os efeitos que ela havia provocado anteriormente, não mais se repetiriam.

É o princípio da incerteza, e isto é o que pode dar sentido e graça à vida. Talvez em todas as nossas conquistas, devamos muito mais ao acaso do que somos capazes de perceber. Talvez não exista o acaso, tudo faça parte de um grande plano que não temos capacidade de entender. Quem teria sido o autor deste grande plano?

No caso das borboletas, o bater das asas de uma delas em determinado lugar do mundo, realmente pode gerar uma movimentação de ar que, intensificada, desencadearia uma alteração na atmosfera terrestre. Todos os dias, milhões de borboletas batem suas asas, trilhões de acasos acontecem e outros tantos trilhões de planejamentos vão por água abaixo. O simples fato de você estar lendo este artigo ao invés de sair ou fazer outra coisa, pode influenciar para que algo diferente aconteça em sua vida.

Disse a mosca ao debater-se: “Deus não existe, somente o acaso rege a existência”.
Disse a aranha agradecida:”Glória a ti, Divina Providência, que a minha humilde teia esta mosca atraístes!”
Disse a flor ao pequeno príncipe: “É preciso aguentar uma ou duas larvas se quiser ver a beleza de uma borboleta”.

Este artigo é uma re-edição. O original foi postado em maio de 2016 sob o titulo  "Causa ou acaso?". De lá para cá, algumas de minhas idéias mudaram em relação  à aleatoriedade. Achei legal compartilhar esta nova visão.

!



21 comentários:

  1. Dr Ildo!! Muito profundo o artigo. Vou refletir. Gostei! Beijo

    ResponderExcluir
  2. Legal esta humildade de reconhecer que suas idéias podem mudar e compartilhar conosco. Idéias podem surgir aleatoriamente para depois serem aprimoradas. Carmen

    ResponderExcluir
  3. OLA! Muito profundo tuas falas. Mas gostaria falar sobre singularidade de alguns artistas. Imagine que: muitas vezes a obras não se desprendam do artista, e que elas fiquem impregnadas em seus poros; que muitas vezes ele não as coloque à venda, com medo de perdê-la, e que ele a trate como um filho a ser cuidado ou como um amor eterno. Mas tudo isso poderia se dissolver a qualquer momento, bastando uma fratura nas engrenagens de uma possível armadilha conceitual? Como saber? Mesmo que o "tempo" exista com uma representação diferenciada para cada um, acredito ser esse, o melhor bálsamo para meus questionamentos...

    ResponderExcluir
  4. Quando passei a agradecer ao acaso tudo de bom que tem me proporcionado, Ele passou a ficar cada vez mais bondoso comigo. Jamie.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sinônimos de acaso: destino, aleatoriedade, universo, Deus....

      Excluir
  5. O acaso vai me proteger
    Enquanto eu andar distraído
    O acaso vai me proteger
    Enquanto eu andar

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Devia ter amado mais
      Ter chorado mais
      Ter visto o sol nascer
      Devia ter arriscado mais
      E até errado mais
      Ter feito o que eu queria fazer
      Queria ter aceitado
      As pessoas como elas são
      Cada um sabe a alegria
      E a dor que traz no coração
      (...)
      Devia ter complicado menos
      Trabalhado menos
      Ter visto o sol se pôr
      Devia ter me importado menos
      Com problemas pequenos
      Ter morrido de amor
      Queria ter aceitado
      A vida como ela é
      A cada um cabe alegrias
      E a tristeza que vier
      (...)
      Devia ter complicado menos
      Trabalhado menos
      Ter visto o sol se pôr

      Excluir
  6. Muitas vezes já tentei fugir do acaso, ele me conduziu de volta!

    ResponderExcluir
  7. Dr Ildo o Sr tomou um chazinho antes de escrever? Complicado o artigo.

    ResponderExcluir
  8. Complicado sou eu! Facilita amigo!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Melhor que isto só “Juntos e Shalow now”
      Kkk

      Excluir
  9. Nenhum vencedor acredita no acaso.

    Friedrich Nietzsche

    ResponderExcluir
  10. Sorte e azar podem ser considerados acaso?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sucesso é apenas uma questão de sorte. Pergunte a qualquer fracassado.



      Excluir
    2. Azar também.

      Excluir
  11. Tive um caso com o acaso e acabei casado.

    ResponderExcluir
  12. Passei por aqui por acaso e gostei. Vou começar a te seguir. Abraços. Carol

    ResponderExcluir
  13. Cada caso é um acaso.

    ResponderExcluir
  14. Quantos casos ainda vou ter que ter até que o acaso me acolha? Eva

    ResponderExcluir
  15. EU NÃO QUERO SER UM CASO..NEM O ACASO...

    ResponderExcluir
  16. Seja você mesmo, porque o acaso não está sob seu controle.

    ResponderExcluir