sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Dê ao homem uma máscara e ele lhe dirá a verdade

Já percebeu que as fotos antigas, aquelas da época de seus bisavôs para trás, tinham algo em comum? Ninguém sorria. Nem mesmo reis, rainhas, imperadores, crianças, damas da sociedade. Até mesmo quando a família estava reunida em uma festa, os rostos não mostravam sinal algum de alegria. Será que a sociedade passava por tantos percalços que ninguém tinha vontade de sorrir? Claro que não.

Alguns sustentam que a sobriedade das pessoas era devida à falta de dentes, o que as envergonhava e obrigava a fechar a boca na hora das fotos. Ora, se quase todos eram banguelas, não precisariam se preocupar com a feiura da boca, já que se constituía em normalidade e ninguém iria depreciar esta condição ou se tornar menos atraente pela falta ou podridão de alguns dentes. Além disso, crianças pequenas ainda não sofriam deste mal e mesmo assim não sorriam.

Outra teoria, bem mais aceita, é a de que as câmeras antigas precisavam de um tempo de exposição extremamente longo para capturar uma foto e as pessoas precisavam ficar paradas, respirando lentamente e sem movimentos durante o procedimento. Sorrir, em geral, é algo inato, porém sorrir em frente a uma câmera não é algo instintivo, e forçar um sorriso mantendo-o aberto por um tempo que poderia variar entre cinco e trinta minutos era muito desconfortável, senão impossível. Fazer um rosto de sobriedade era bem mais fácil que manter um sorriso falso.
 

No entanto, a culpa dos rostos sisudos nas fotos não pode ser atribuída exclusivamente à falta de tecnologia. Entre os anos 1850 e 1870, já era possível, em condições adequadas, capturar fotos com apenas alguns segundos de exposição. Nas décadas seguintes, isso era ainda mais rápido, no entanto, os rostos fechados permaneceram.

Parece que a explicação mais coerente para o recato fotográfico tem mais a ver com moralidade que qualquer outra coisa. Lá atrás, a única maneira de registrar o semblante de alguém, era um retrato pintado, processo demorado e caro, cujo resultado seria eterno. Isto era um luxo para poucos bem aventurados, que não queriam ser capturados para a posteridade com um sorriso idiota no rosto. Sorrisos largos eram associados à loucura, grosseria, embriaguês, leviandade, falta de decoro, característicos de bobos da corte, bêbados e cortesãs. As únicas exceções eram os santos, muitas vezes retratados com leves sorrisos, quase imperceptíveis.

A pintura da Mona Lisa, também conhecida como Gioconda, é provavelmente o retrato mais famoso na história da arte. O quadro, pintado em 1503, representa uma mulher introspectiva, um pouco tímida e com um sorriso enigmático.  Restrito, casto, modesto, porém muito sedutor. O pintor Leonardo da Vinci conseguiu através deste sutil movimento dos lábios ser controverso, elogiado, questionado, comemorado e reproduzido como um vanguardista na estética do sorriso.

Em 1888, a Kodak lançou no mercado a primeira câmera fotográfica automática. Podia ser utilizada por qualquer pessoa, mesmo uma criança. A campanha de lançamento dizia: você aperta o botão e nós fazemos o resto. Isso aumentou a popularidade da fotografia, que rapidamente começou a esvaziar a arte da pintura. Ainda assim, a herança do espírito de seriedade não foi abandonado. A fotografia, assim como acontecia com a pintura, ainda era um ritual de passagem para a imortalidade. Para algumas pessoas, a fotografia acontecia apenas uma vez na vida, já que tinham de enfrentar longas viagens até o local das fotos, que apesar de terem vencido a morosidade da exposição e revelação, ainda eram muito dispendiosas.

Hoje, incorporada ao cotidiano das pessoas, a fotografia deixou de ser um registro único da pessoa para todo o sempre. Se você está carrancudo ou saiu mal numa foto, não significa que você é ou será sempre assim. Pode bater quantas fotos quiser até acertar o ponto. Ademais, as pessoas mudam e querem registrar essas mudanças em fotos. Fazem selfies, caretas, sorriem, choram, abraçam, beijam, dizem xis e vão clicando. Tiram trinta fotos, apagam vinte e sete, editam três, gostam de uma e postam nas redes sociais. O estudo dos sorrisos nas fotografias demonstrou que estar ou não sorrindo não tem nada a ver com o fato de estar feliz ou não. Sorriso nem sempre é sinônimo de felicidade.

As pessoas sorriem por muitas razões, contudo há apenas um tipo de sorriso que é usado para transmitir felicidade genuína. A maioria dos sorrisos que recebemos são falsos, mas não no sentido de enganosos. As pessoas sorriem para estabelecer conexões com os outros, impressionar, seduzir, apaziguar, esconder o desconforto, reagir à dor. Sorrisos são socialmente úteis, pois podem ter um impacto positivo mesmo que não manifestem um sentimento genuíno de felicidade.

Dentre os inúmeros aprendizados que vieram com a pandemia do coronavirus, está o uso das máscaras, naquilo que é chamado etiqueta respiratória. Cobrimos o nariz e a boca para não adoecermos e, como efeito colateral, escondemos nosso sorriso e nos tornamos iguais na condição de vulnerabilidade e despersonalização. Mesmo que alguns ainda as rejeitem, as máscaras se tornaram itens de primeira necessidade, quase ou mais importantes que as peças intimas.

Pode até parecer um jogo de palavras, mas usar a máscara nos desmascarou. Algumas pessoas aproveitavam o sorriso como máscara para não mostrar suas verdadeiras intenções, agora, obrigadas a vestir uma máscara, tapando o nariz e a boca, não podem mais utilizar o sorriso como contágio transmissor de ideias ou sentimentos enganadores. A máscara foi o antídoto para o sorriso falso.

Estamos nos adaptando. Alguns estamparam um sorriso na própria máscara, outros a retiram para falar, alguns ficaram mais bonitos, outros usam uma máscara por cima da outra. Talvez a máscara ao invés de esconder, esteja cumprindo agora aquilo que o escritor irlandês Oscar Wilde certa vez falou: Dê ao homem uma máscara e ele lhe dirá a verdade, se tornando quem realmente é. Seja como for, de uma forma ou de outra, a máscara está nos protegendo. Use máscara. Sorria sem máscara. Se puder, sem medo.

 


6 comentários:

  1. O bom é quando a gente se pega sorrindo...de uma lembrança, de alguém...

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  2. Este texto me remeteu em muitas lembranças, fotos que bateram para comemorar meu primeiro ano de vida, lembrancinhas de aniversário. E foram muitas fotos, algumas chorando outras no jardim, no colo da tia e da vovó. Mas foi na adolescência que experimentei as famosas câmeras " Xereta dos anos 70", as revelações eram feitas em São Paulo, e quando as fotos reveladas chegavam, ganhava-se um novo rolo de filme para as próximas fotos. As máquinas passaram por evoluções até chegar ao celular e todos viraram fotógrafos. Quanto ao sorriso, este faço com meus olhos, com o coração e muitas vezes com a alma, a máscara é apenas um detalhe, que por sinal, não aprecio.

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  3. Um sorriso é lindo... mas em tempos de uso da máscara, o olhar é a parte do rosto que admiro muito e que se revela vários sentimentos.
    Se observarmos bem em tudo há suas nuances de beleza.

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  4. Encantadora de Almas18 de outubro de 2020 20:25

    Muito bom Dr Ildo! Parabéns!
    Não ando numa fase de muitos sorrisos, a máscara tem me ajudado!
    Os óculos são fundamentais, consigo ficar distante dos olhares mais profundos. Blindada! E nada de fotos!
    abraços

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  5. Quantos gritos de socorro cabem em um sorriso?

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  6. Um sorriso vale mais do que ele dura

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