sábado, 15 de outubro de 2011

Fui traido, e agora?


 Responda com sinceridade, você tem uma pessoa na qual pode confiar cegamente, entregar a chave de sua casa, passar uma procuração de seus bens, contar seus segredos mais íntimos? Não vale pai, mãe, filho, irmão. Tem que ser uma pessoa sem laços de consanguinidade.

Eu achava que tinha, até o dia em que fui pego de surpresa. Uma pessoa da minha inteira confiança me traiu. A dor foi grande, nem tanto pelo ato em si, mas pela indignação, pois jamais esperava isto dela.  Fiquei muito mal, não sabia como me comportar. Engoli tudo em seco e não tomei nenhuma atitude em represália. Acho que estava em estado de choque.

Tinha três opções dali para frente:
1) Enquadrar esta pessoa como traidora, transformando aquele episódio no acontecimento mais desgraçado de minha vida, focando todos os holofotes no monumento erguido em homenagem a dor e a mágoa;
2) Desperdiçar tempo e saúde arquitetando vingança e recontando mil vezes a velha história na tentativa de difamá-la, ou
3) Colocar-me no lugar desta pessoa e procurar não só entender, mas também sentir sua fraqueza.

 Enquanto as feridas da traição ainda sangravam, não tive sanidade para pensar.  O tempo foi passando e nada acontecia. Silêncio e inércia bilateral. Se nenhum dos lados se movimentasse, esta seria mais uma dentre tantas histórias que desacreditam na humanidade e falam que errar é humano e perdoar é só com os deuses.

Lentamente comecei a elaborar o processo de perdão. A vida moderna, globalizada, tecnológica, competitiva, instantânea, descartável não permite muito tempo pra pensarmos nos prós e contras de todas nossas ações.  Em determinada situação, mesmo a pessoa mais ética e bem intencionada pode se confundir, surtar, descompensar e trair a si própria e a todos que a rodeiam. Todos estão sujeitos a isto, em maior ou menor grau.

 Quase nunca a traição é resultado apenas de estresse, surto ou alguma contingência especial. Na maioria das vezes é falta de caráter mesmo, mas nestes casos, a pessoa vai dando sinais ao longo do tempo, que analisados em retrospectiva deixam clara a diferença. Não era o caso desta pessoa, que jamais apresentara um deslize ético e merecia uma chance.

O problema é que eu não conseguia perdoá-la. Racionalizava o que poderia fazer para corrigir a injustiça ou deixar de ter feito para evitar todo o sofrimento, mas nada fazia, sequer pensava em qualquer tipo de aproximação ou absolvição.  Neste processo de condenação fiquei sofrendo por um longo tempo, sendo o meu próprio verdugo e do outro também. Quem somos nós para julgar alguém?

Nem tudo precisa ter lógica ou explicação. Esta é a graça da vida. O “lado bom” de sofrer a traição, se é que pode existir, foi ter recebido o privilégio de genuinamente aprender a perdoar. Alguns confundem perdoar com esquecer, outros perdoam da boca para fora. Não existe receita exata de como perdoar, precisa surgir de dentro das entranhas.  É um processo de foro intimo, unilateral e para uso interno. Não se perdoa porque isto fará bem ao outro, mas porque faz bem a quem perdoou. Assim o fiz, lenta e silenciosamente desvencilhei-me dos sentimentos nocivos, deixei de ser vítima e acabei perdoando.  

Perdoar é humano, assim como errar também. Perdão não significa aceitar o comportamento errado, nem tampouco a renúncia aos valores violados. Perdão é o encontro do amor com a justiça. Obrigado amigo, por ter me dado a oportunidade de crescer. Aprenda com seu erro, cresça também e fique em paz.

Texto fictício, qualquer semelhança com pessoas e fatos é mera coincidência.




2 comentários:

  1. Perdoar, bem viver, amar, compreender, co-habitar harmoniosamente, conviver, todas, igualmente, são condições humanas experimentadas (genuinamente)somente por aqueles que aprenderam a árdua tarefa de se colocar no lugar do outro.

    Isso é para pouquíssimos, creio.

    Muito bom, Ildo.

    bjo

    ResponderExcluir
  2. Trair?
    Todos traem. Uns mais, outros menos... Cada um de nós tem uma história de vida (ou várias?) onde essa situação veio à tona... e deixou marcas!
    Geralmente, depositamos demasiada confiança nos outros. Na boa. Somos ingênuos, desprevenidos, incautos... sobretudo quando nos entregamos de alma a alguém.
    E se nossa autoestima estiver em alta? Sabe aquela hora em que acreditamos tanto em nós mesmos... que de repente, sem saber por que, ou mesmo sem querer, a gente se trai também? Acontece!
    Perdoar a falta cometida contra si próprio é trabalho difícil. Extenuante, diria eu! A conta vai direto para o inconsciente e essa dívida de dor nos é cobrada de maneira sistemática (ou sistêmica??).
    Perdoar os outros vai depender do erro perpetrado, do tamanho da ferida, do dano ocasionado, das lágrimas derramadas, da inteção havida, do tipo e grau de sentimentos que investimos naquela pessoa, e por que não, do quanto somos capazes de transigir!
    Quanto maior o crédito que colocamos em alguém, maior será a mágoa que ele nos causará com sua traição seja ela qual for... e maior deverá ser o nosso empenho para poder perdoar. Não é tão simples assim, nem se trata de processo rápido ou indolor.
    Valorizar o ser humano com toda sua carga de vicissitudes e incongruências é o primeiro passo.
    Resgatar o pouco que há de magnânimo em nós talvez se revele como o exercício mais eficaz nestes casos.
    Gostei do texto, principalmente porque me instigou e me fez refletir sobre o tema.

    ResponderExcluir