terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Motivos para se desapaixonar

Sempre fui apaixonado por futebol. Acho até que era um tanto fanático pelo meu clube, o Internacional de Porto Alegre.  Ia ao estádio assistir todos os jogos, com chuva, frio ou vento forte. Ganhando ou perdendo, estava lá para ver meu time jogar e torcer por uma vitória.

Aos poucos fui perdendo o interesse, a ponto de hoje não assistir nem aos jogos transmitidos pela televisão. Mas a apatia não foi sem motivo. O futebol se profissionalizou demais, virou muito mais técnica que talento. O amor pela camiseta e a garra que marcaram minha infância já não são os mesmos. E quando as coisas deixam de ser feitas por amor e paixão e o dinheiro passa a ser o combustível, a graça e a beleza murcham como flores sem água no deserto.

Meu fascínio pelo futebol acabou, mas lá no fundo ainda ficou a lembrança dos bons tempos e o desejo de resgatar a paixão de ir à campo vestindo a camiseta do clube, pintar o rosto com a cor vermelho-paixão e voltar orgulhoso ao final da partida com o show de bola que “meu” time apresentava. Tenho muita vontade de conversar com jogadores e técnicos sobre futebol arte, competição e filosofia no esporte. Resolvi postar algumas idéias na internet. Quem sabe o poder viral as dissemine e de uma maneira indireta possa atingir meu objetivo.


Embora pareça que jogadores, clubes, dirigentes e torcidas estejam juntos e unidos no mesmo propósito e falem a mesma língua, cada grupo tem posições diferentes quanto ao que acontece dentro e fora de campo. Como torcedor posso afirmar que brasileiro vai a campo para assistir futebol bonito. Quer ver o drible que deixa o adversário caído, a tabelinha que envolve, a jogada de calcanhar, o chute indefensável, a mão milagrosa do goleiro. Resumindo, torcedor gosta de ver futebol espetáculo.

Orquestras, bandas de rock, peças de teatro, circos são outras formas de espetáculos grupais. Mesmo atuando em equipe, cada vez que um artista tem a chance de fazer uma performance isolada, tocando seu instrumento, cantando ou equilibrando-se no alto de um trapézio, aproveita a oportunidade de se destacar e procura mostrar toda sua competência e experiência naqueles poucos segundos de fama. Geralmente dão o melhor de si para encantar a platéia. Aliás, o objetivo de um artista sempre é deixar a platéia extasiada, aplaudindo de pé, pedindo bis.  Não é isto que está acontecendo no futebol.

Cada vez que um jogador recebe a bola e tem chance de mostrar sua excelência, imediatamente a repassa para o companheiro mais próximo, como se tivesse medo de fazer alguma bobagem. Esta é a nítida impressão que tenho dos jogadores: medo de ousarem jogar futebol. Não querem se comprometer. Parece que a bola vai lhes machucar. Precisam se poupar. A oportunidade não bate à porta, ela se apresenta quando você derruba a porta. Quarenta mil pessoas pagam caro e lotam um estádio para assistir onze jogadores com medo de outros onze. Se fossem gladiadores, já teriam sido devorados pelos leões.

Até mesmo nas entrevistas, utilizam-se de frases genéricas, totalmente descompromissadas e sem qualquer responsabilidade com a torcida que eventualmente frustram. Sem contar quando o jogador já está vendido para outro clube e a torcida é a última a saber. Que saudade dos jogadores que choravam quando o time perdia, permaneciam em campo mesmo sentindo dor, beijavam a camisa e declaravam seu amor ao clube. Era com esta paixão que nos identificávamos.

Não sei se é orientação dos técnicos ou da direção. Não sei se existe alguma ameaça velada de que jogadores que se destaquem e façam boas jogadas serão mais visados, receberão mais faltas, se machucarão com mais freqüência, e por conta disto, fogem da bola. O fato é que parece que a bola morde os jogadores. Quando acontece um gol, este é muito mais por um acidente, uma falha do adversário, uma bola parada ou um erro de arbitragem. Nos dias de hoje, gol construído com categoria e habilidade chega a ser raridade, vira noticia e é reprisado durante toda a semana nos programas esportivos. Eu tive o privilégio de assistir isso todos os domingos.   

Ganhávamos jogando bonito. Às vezes perdíamos ou empatávamos, mas sempre havia show de bola. Quando jogávamos futebol no campinho de areia, cada amigo escolhia um nome: Pelé, Tostão, Falcão, Rivelino. Espelhávamos nestes ídolos, tentávamos repetir suas jogadas. A tensão e a ansiedade não nos deixavam dormir direito antes dos jogos. Chorávamos quando o treinador nos colocava no banco de reservas. Trocávamos as festas e até mesmo as brincadeiras da juventude por jogos nas frias manhãs de domingo. Vivíamos e respirávamos futebol.

Em algum momento, a mentalidade dos clubes mudou e o importante passou a ser a vitória, mesmo jogando mal, com gol roubado ou nos descontos. Por um tempo isto funcionou, mas terminou contaminando o esporte, jogadores e torcida. A conseqüência é que hoje o futebol é feio, apático, sonolento, quase sem emoção, e ainda por cima, perdedor. A vitória nos conforta, é paliativa, mas não nos anima mais.

Temos consciência de que o futebol perdeu sua graça e ainda assim, torcedores que somos, continuamos resistindo e apostando nesta paixão antiga. Acreditamos que  trocando o  treinador, fazendo duas ou três novas contratações, inaugurando um fardamento novo, daremos jeito na casa. É parecido com o que acontece com casais,  quando um começa a ter uma batida diferente do outro e iniciam as conversações para voltarem ao mesmo ritmo. 

Filosoficamente falando, paixão é assim mesmo, não tem muito a ver com razão, mas tem tudo a ver com futebol e com a vida.  Mesmo escancarando todos os motivos para não se gostar mais de futebol, a paixão é um sentimento tão forte que mantêm o torcedor sofrendo obsessivamente, no desejo de que o encantamento e  deslumbramento que lhe arrebataram um dia, retornem e permaneçam eternamente lhe alimentando a alma.

Apaixonar-se é uma sensação maravilhosa, mas a gente não se apaixona porque quer, a paixão é que nos abraça e envolve. Nem sempre existem motivos e quase nunca temos escolha. Simplesmente acontece. Permanecer neste estado pode ser a benção ou a desgraça de cada um.

O processo de se desapaixonar é o mesmo, só que no sentido inverso, e ao contrário do que possa parecer, não é tão doloroso assim. Mas é chato, não tem graça. Como bem disse Rubens Fonseca, “o que me mantêm vivo é o risco iminente da paixão e seus coadjuvantes: amor, ódio, prazer, misericórdia”.

Entre tapas e beijos, no final das contas, estar apaixonado é muito bom. Ruim mesmo é se apaixonar pela pessoa errada, pela coisa errada ou até pelo time errado. Mas isto não é motivo para desanimar,  para tudo nesta vida, sempre há uma saída.






2 comentários:

  1. "Ó que beleza do Ildo Meyer, a vida para os fortes : “A oportunidade não bate à porta, ela se apresenta quando você derruba a porta.“" Vânia Dantas

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  2. Não curto futebol, mas os últimos parágrafos ficaram muito legais. Claudia Marques

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