sábado, 23 de novembro de 2013

Mais que leitura, reflexões

“Qual a diferença entre o cientista e aquele que tem fé?”. Essa é uma das questões impostas ao personagem central deste romance, mas pode ser também uma questão a ser refletida por você, caro leitor.

Quero antes de tudo agradecer ao amigo Beto Colombo: obrigado duas vezes. Não apenas pelo convite para escrever essa apresentação, mas pelo livro em si. Chegou em boa hora! Fez-me pensar,  e já causou alguns estragos construtivos.

O ponto de partida da estória (ou seria história?), é a aparição de um pássaro na cama do personagem narrado na primeira pessoa pelo próprio autor e que acabou envolvendo toda a sua família. Mas não se tratava de qualquer pássaro, era um urubu.


Apesar da morbidez que carrega em sua imagem popular, a invasão não assustou Beto, pois aprendera com seu avô que o urubu era considerado uma ave sagrada.  O fato de haver pousado sobre a colcha  nova, imaculadamente branca, não significava mau agouro; afinal, aquele pássaro sempre teve uma relação muito forte com a sua vida de menino. Era, de fato, um sinal.

Quem mais ousaria deitar sobre a mesma colcha branca onde o pássaro se aninhou? Beto deitou. Deitou, dormiu e passou por experiências transformadoras.

Sonhou e passou do paraíso ao inferno. Percorreu caminhos difíceis. Passou pela experiência de sair do próprio corpo. Entrou em portais que eram opostos, desde a leveza do ambiente limpo, arborizado e com música clássica, até o cinza, o cheiro de enxofre e o barulho infernal. Conceitos comumente identificáveis, certo? Não exatamente. Essas experiências foram desencadeadas pelo ressurgimento do Velho Bah, um senhor de idade, pele escura, que trabalhou na roça da família de Beto e desapareceu sem maiores explicações.

O velho retornou para mexer com toda a crença que o autor tinha acerca daquilo que melhor conhecia: as questões envolvendo a fé, a religiosidade e, por consequência, as questões mais pulsantes da humanidade. O velho Bah o ensina não apenas ler, mas a reler e a reinterpretar. E esse exercício foi empregado analisando a Bíblia. Quantos de nós paramos para pensar no que representam os relatos ali descritos, ou quantos deles ocorreram realmente daquela forma? Quase ninguém.

No decorrer dos capítulos, ao todo sete, passagens envolvendo Caim e Abel, a traição de Judas e outras importantes citações clássicas do Livro Sagrado ganham uma nova e surpreendente re-leitura. Beto retoma a Bíblia não mais com um olhar dogmático, pois, agora utiliza, também, a visão da filosofia clinica, lendo o texto, mas não esquecendo o contexto. O arrebatamento não tem fim, nem as perguntas: Por que não somos ensinados a ler aquilo que está retido em metáforas? Por que não conseguimos, por conta própria, analisar algum outro significado, além daquele que nos é doutrinado? Por que não arriscarmos uma nova leitura?

Beto Colombo se deparou, também, com pessoas que sobreviviam, mas não viviam, isto é, apenas existiam, pois no cotidiano apressado não experimentavam a plenitude das pequenas coisas, dos sabores, dos cheiros e das experiências diárias. A jornada que percorreu foi importante como um todo, mas, acima de tudo, por tê-lo colocado novamente frente a frente com o Velho Bah – ou seria consigo mesmo? - , figura marcante de sua infância, e que vai ganhando importância na narrativa e surpreendentemente se transformando.

Assim, Beto, com a ajuda de Bah, passa a entender e a sentir melhor as coisas, responder seus próprios questionamentos, deixar alguns julgamentos de lado, ficar mais atento a fé e, finalmente, descobre que no momento em que reduzimos alguém a um erro, deslize ou forma, estamos nos afastando do sagrado. Muitas vezes não reconhecemos os anjos porque estamos fixos, fechados num estereótipo que só existe na cabeça dos humanos: uma criança assexuada, cabelo crespo, loirinha, olhos azuis. Neste romance, contrariando as expectativas,  anjos aparecem de formas espantosas e variadas.

Esse livro vai possibilitar uma visão mais ampliada sobre as ditas verdades absolutas, vai fazer você mergulhar nas entrelinhas do que sempre pareceu ser a única versão das coisas. Não se trata de criar polêmicas, mas de abrir a mente para novas possibilidades.
  
O Velho Bah é uma obra intrigante, que possui como característica principal a possibilidade de conduzir o leitor para dentro de suas próprias convicções e analisá-las com um outro olhar; libertando os seus próprios pensamentos, e, acima de tudo, permitindo que faça novas perguntas. A despeito delas, que tal estas: “Qual a diferença entre o cientista e aquele que tem fé?”. “Qual a diferença entre o filósofo e aquele que crê?”. Beto encontrou as respostas, e você irá descobrir também,

Poderia eu encerrar desejando boa leitura. Vou além: desejo boas reflexões.



Ildo Meyer, Médico e especialista em filosofia Clínica
Prefácio do livro "O Velho Bah", de Beto Colombo


Um comentário:

  1. Claudio Luiz Oliveira23 de novembro de 2013 14:55

    Já fiquei louco para conhecer este velho!!!
    Quando chegará a Porto Alegre?

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