sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Sinais

Durante a cerimônia de casamento do filho de um amigo, tive uma visão. Não têm nada a ver com religiosidade. Enxerguei o amor. Mais do que isto, ele falou comigo. Chorei o tempo todo e quando lembro da cena, ainda choro. Contei o fato para alguns amigos que pensaram em me internar, mas como dizem que em todo amor sempre há um pouco de loucura, estou aqui para contar o fato.

O amor não se mostrou nas palavras do padre, no altar, nas alianças. O amor estava nos olhares, nos toques, no aconchego,  na cumplicidade daqueles jovens noivos. Ela tremia, olhava para ele, que interrompia o protocolo para segurar sua mão com delicadeza e beijá-la. Ele falava com voz embargada, inundado pelas lágrimas que ela vertia e manchavam a maquiagem. Parecia que a cada momento, um saía de dentro de si para entrar no outro. Quando ela verbalizou seu amor, olhando por dentro da retina dele, não precisaria ter falado, o amor estava ali estampado, ao vivo, a cores e com toda sua força.

O casamento aconteceu à beira mar e a energia daquele lugar, somada ao som das ondas serviram de cenário para minha conversa com o amor. Acreditem ou não, tenho bem claras as palavras que escutei: “Não aceite menos que isto, é assim, desta forma, que funciona o amor. Guarde estes olhares dos noivos em sua memória, qualquer coisa diferente disto, não é amor.”

Eram três irmãs, todas loiras e solteiras. Duas delas lindíssimas e bem sucedidas profissionalmente, a terceira nascera com uma pequena deficiência mental, sem a beleza das outras, nem tampouco capacidade de crescimento intelectual.

Apesar disto, era bem relacionada, levava uma vida compatível com suas aptidões e namorava um rapaz com deficiência mental em nível similar. Depois de certo tempo de namoro, ela foi comunicar aos pais que desejava casar.

A mãe, preocupada com o futuro da filha, mal teve tempo de observar os olhares e emoções que os “deficientes” trocavam e logo argumentou que o menino tinha certas dificuldades e que ela teria condições de conseguir alguém melhor para marido. Chegou a dizer que a filha “merecia mais”. A resposta da menina foi uma lição de vida.

- Mãe, sei que não sou tão bonita quanto minhas irmãs, não sou médica como a Ana, não sou advogada como a Paula, não sou professora universitária como a senhora, não tenho mestrado como o papai, não sei dançar direito, não sei jogar tênis como vocês, nem dirigir automóvel consigo, mas uma coisa eu sei fazer: Eu sei amar! Nisto sou melhor que vocês todos juntos.

A mãe da menina pensava “ela merece mais”, o amor receitou “não aceite menos”. Em ambas situações o amor se escancarava, só que nem todos puderam enxergá-lo. Muitos estão cegos e perdidos entre os “mais, menos, mas, porém, não sei, tenho dúvidas” e não percebem os sinais.   Vários se iludem, desiludem, não tem tempo nem de olhar para si. Alguns buscam ajuda em consultórios psiquiátricos, outros em livros especializados, outros mais em sites de relacionamento.

Enquanto isto, o amor está ai, virando a esquina, atravessando a rua, descendo no elevador, correndo no parque, pendurado num poste,  pedindo pra ser encontrado. Não é preciso ter estudo, QI elevado, idade suficiente, anos de namoro, terapia ou qualquer outro pré requisito para entrar nesta sintonia.

Basta apenas estar aberto aos sinais do amor em quase tudo que está a nossa volta.  O amor é real, o amor existe, quem o procura não está louco. Voltei a flertar com o amor, mas agora o enxergo e sinto diferente, e tudo isto, por incrível que pareça, traz muita paz. Não mereço nada menos que isto.









6 comentários:

  1. Como dizia Caio Fernando de Abreu: "Que seja doce..."

    ResponderExcluir
  2. Olá Ildo,

    Fiquei encantada com a forma que você falou do amor...da emoção...dos sinais...


    Um grande abraço,


    Linelsa Varela

    ResponderExcluir
  3. Jussara escreveu: "Caramba... Que bom, não estou sozinha e nem com poucos. "Qualquer coisa diferente disto, não é amor." Obrigada Ildo Meyer. Seu belíssimo texto veio ao encontro de buscas que faço em espiral, há algum tempo. Vou tentar achar a pontinha depois dessa leitura
    Jussara Haddad

    ResponderExcluir
  4. "Lindo, lindo, lindo... meus amigos, leiam a emoção estampada na profundidade dos olhos... momentos para se mergulhar. Muitos parabéns pela sensibilidade, Ildo Meyer"

    Vania Dantas

    ResponderExcluir
  5. SIMPLESMENTE AMEI!!!! TORÇO PARA QUE ENCONTRE O AMOR QUE PROCURAS E O DEFINAS NUM NOME.... Parabéns pela sensibilidade em entender, apesar de teu sucesso, que sem ele nada vale.

    ResponderExcluir