sábado, 28 de abril de 2012

Por que confiar?


Faz tempo que tenho vontade de escrever sobre confiança. Alguns bloqueios e muitas dúvidas seguraram meu ímpeto de colocar no papel o que pensava. Precisei conversar com pessoas, testar níveis de confiança, fazer pesquisa de campo até decidir  compartilhar minhas idéias.

Para uns, confiança é um ato de fé e dispensa raciocínio; para outros, confiança não é inata e precisa ser conquistada. Seja como for, confiança é algo a ser dado ou emprestado a alguém como crédito ao bom comportamento. Funciona como um presente que é ofertado em determinado momento da relação e sinaliza uma expectativa de que esta pessoa ou entidade está orientada para decidir nossos interesses tão ou melhor que nós mesmos faríamos se estivéssemos em seu lugar. Resumindo, confiança é a previsibilidade de valores comportamentais em qualquer situação, até mesmo diante do imponderável.  Cabe uma indagação: é possível prever o comportamento do outro?

Uma das características do inconsciente coletivo brasileiro é a cultura do “levar vantagem em tudo”. A malandragem implícita neste conceito inevitavelmente cria uma rede de desconfiança que coloca em risco todos os tipos de relacionamento, pois a qualquer momento podemos ser passados para trás. Desta forma, hoje em dia confiar é como caminhar no escuro, sempre vai existir a possibilidade, mais ou menos remota, de tropeçar.

Como devem então se comportar os casais? Ao conhecer uma pessoa é recomendável dar um voto de confiança ou inicialmente deve-se desconfiar de tudo e todos?  Depois de quanto tempo um namorado(a) pode saber se confia no outro e se entregar totalmente? Confiança é um sentimento quantitativo ou qualitativo? Pode haver confiança seletiva, ou seja, confiar que  o companheiro(a)o nunca vai deixar de prover a família e estar presente nos momentos importantes, mas desconfiar da fidelidade conjugal?

É possível amar e não confiar? Qual a graça do amor quando há ausência de confiança? Por que conviver com uma pessoa sabendo que ela não merece nossa inteira confiança? A resposta para a maioria destas perguntas poderia começar com a palavra “depende”, e talvez ai esteja a chave da questão, dependemos de algumas coisas para depositarmos nossa confiança.

Nem sempre o problema da falta de confiança é culpa do outro. O ciúme é um bom exemplo, pois representa uma demonstração muito maior da falta de confiança em si, do que no comportamento do outro. Podemos eventualmente ser traídos por nossos próprios julgamentos. Se você não confia no outro, este não lhe retribuirá a confiança e  a traição será apenas consequência da confiança não depositada. Nem sei se podemos chamar isto de traição, pois quando não se deposita confiança, não se configura traição.

Outra forma de pensar seria depositarmos no outro a mesma medida que nos sentimos confiáveis, ou seja, se me julgo leal, o mesmo crédito vale para o outro. Claro que existe o lado inocente de confiar cegamente para depois descobrir que foi enganado(a). Você dá abertura,  alguém entra na sua vida, rouba seu tempo, destrói sua confiança, agride sua auto-estima, estilhaça o pouco que resta da sua esperança no amor e depois vai embora. Qual o tamanho da mentira ou traição para que se perca a confiança? Uma vez perdida, jamais poderá ser recuperada?

Nem sempre fazemos as escolhas mais sensatas, por vezes uma voz interior aponta um caminho enquanto outra grita dizendo que devemos ir para o lado oposto. Confiar socialmente ou entrega total? A escolha é individual, envolve riscos e recompensas. Cada um sabe até onde quer ir ou pode chegar.

Dá para entender a dificuldade em escrever sobre o assunto? Afinal de contas, qual a serventia de confiar? Por que entrar num jogo onde as chances de perder são reais? Não é melhor ficar sempre com “um pé atrás”?  Confiar é apostar tudo, mesmo correndo o risco de não dar certo. Poucos são capazes deste desprendimento. Confiar é dar espaço, abrir portas, entregar um cheque em branco. Confiar é acreditar em si e no outro. Confiar é ir atrás, mesmo que digam não querer mais. Confiar é perdoar antes mesmo do erro acontecer.

Confiar é escutar aquela voz interior dizendo que apesar da escuridão, podemos amar sem medo, pois a única forma de o amor fluir, é confiando totalmente em seu brilho. E se falhar? Não perca a confiança!

Um comentário:

  1. Dificuldade em escrever sobre o assunto? Se for muito mais além, muito mais no íntimo de cada um para analisar seus motivos de "confiar" ou "trair", com certeza é sim um assunto complexo demais, talvez de dois ou mais lados. As apostas para um relacionamento foram lançadas, a confiança precisa fazer parte para poder ser acreditada e vir a felicidade, correr o risco de não dar certo? Sim.. há o risco. Assim como muito na vida é preciso por em risco para obtermos respostas, conclusões, aprender. Ficar sempre com "um pé atras" faz perder a ilusão de uma "vida perfeita". Então digo, Eu Confio... Sempre desconfiando, pro tombo não ser muito grande!

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