sábado, 31 de dezembro de 2011

Os riscos de um novo ano



Você gosta de correr riscos? Jogar em cassino, fazer sexo casual sem preservativo, dirigir alcoolizado, conversar com estranhos, aplicar dinheiro no mercado de ações, fumar, não realizar exames médicos de rotina...

Algumas pessoas têm aversão a riscos, outras adoram, apostando até o limite da delinqüência. A maioria, entretanto, prefere ser cautelosa, sacrificando possíveis ganhos em troca de tranqüilidade. Por que alguns se protegem e outros se expõem? Talvez pelo grau de sensibilidade individual em relação a riscos e recompensas.

Parece simples dividir as pessoas em dois grupos, os que jogam e os que não arriscam. Na prática não é tão fácil assim.  Mesmo os mais conservadores, aqueles que avaliam todas informações disponíveis, calculam custos, benefícios e tomam  decisões depois de avaliar meticulosamente as probabilidades,  podem não resistir e eventualmente cair na tentação de jogar com a sorte. Estudos demonstram que quanto mais a recompensa torna-se palpável e imediata, maior o prejuízo na capacidade de avaliar riscos e maior a chance de arriscar para tentar ganhá-la.

Tomemos o exemplo hipotético de uma loteria em que a probabilidade de ganhar é de dez por cento e o prêmio é cinco vezes maior que a aposta. Se o individuo jogar um grande número de vezes, a proporção de ganhar é uma em dez e o prêmio recebido cinco vezes a aposta, ou seja, o ganho será metade da despesa total. Assim, quanto mais vezes jogar, mais dinheiro vai perder, pois os jogos de azar calculam os prêmios em função das probabilidades e o objetivo é depenar o jogador. Apesar de saber disto, cada vez que alguém ganha, a recompensa torna-se palpável e o foco dos jogadores é desviado da probabilidade para a possibilidade.

Qualquer coisa é possível, até mesmo o que raramente acontece. Ganhar na loteria jogando apenas uma vez é um exemplo de possibilidade. Probabilidade já é algo diferente, envolve cálculos, estimativas, experiências de uso comum ou técnico, e fornece graduações desde a mínima possibilidade até  probabilidades de graus menores, médios e maiores. As probabilidades lotéricas indicam que se o individuo jogar regularmente, o ganho nunca compensará o dinheiro investido.

Nosso cauteloso viajante vai passar as férias em Las Vegas, visita um cassino e sabe de antemão que a banca nunca perde. Observa atentamente o jogo de roleta. Escuta os gritos de felicidade de um jogador qualquer ganhar o premio máximo na mesa ao lado. Ao ver a alegria, a montanha de fichas empilhadas, os comentários das pessoas, seu estado de espírito se altera, experimenta um sentimento de empolgação e, sem se dar conta, suas emoções passam a sobrepujar a lógica das probabilidades. Acredita que seus números, combinações mágicas e orações têm a possibilidade de passar por cima das probabilidades. Compra então, sem pensar, por um preço não muito caro, a esperança de ficar rico.  Perde todo seu dinheiro e reservas em minutos.  

Isto não acontece apenas com jogos de azar. Muitas de nossas decisões mais importantes derivam de uma avaliação subconsciente dos riscos, onde reações emocionais perturbam a lógica e podem levar a decisões ou julgamentos falhos.

Na festa de final de ano, uma funcionária tentadora seduz o gerente casado. As insinuações visuais e sensoriais são tão intensas que despertam o desejo carnal. Não se trata de um gerente ousado. Jamais tivera uma relação extraconjugal, sabe muito bem os riscos da destruição do casamento, da possibilidade de adquirir doenças ou de engravidar a parceira. Embriagado pelo calor do momento, torna-se incapaz de avaliar com precisão os riscos, esquece a família, esquece de utilizar preservativo e transforma-se em um libertino inconseqüente.

A questão aqui não é aprovar ou justificar determinado tipo de comportamento. Os exemplos citados servem para mostrar que hipocrisia e moralidade, amor e luxúria, honestidade e embuste, defeito e virtude podem coexistir numa mesma pessoa. Todos têm o potencial para mentir, trair, roubar e pecar, independente da magnitude de seu caráter e podem, sob determinadas circunstâncias, agir contraditoriamente ao que acreditam, pregam e exercitam em suas vidas.  Atire a primeira pedra quem não se enquadrar neste conceito.

Não é de hoje o costume de fazer promessas e superstições para mudar de vida ao final do ano. Depois de comer lentilhas, pular sete ondinhas, usar calcinha ou cueca nova, guardar sementes de romã na carteira, beber champagne, abraçar parentes e amigos, promessas e previsões são proclamadas interna ou externamente.  Neste momento de empolgação, o mesmo princípio que faz o homem sério jogar no cassino ou trair a esposa, faz com que o indivíduo confunda possibilidade com probabilidade.

A entrada de um novo ano faz vislumbrar a imagem de uma porta se abrindo, repleta de possibilidades. Nesta hora, alguns se entusiasmam e a probabilidade de efetivar promessas é substituída pela possibilidade casual de serem cumpridas, e por conta desta confusão, irrompem promessas inadvertidas. Geralmente as mesmas que não foram cumpridas no ano anterior, retornam  recauchutadas para serem esquecidas depois do carnaval, quando realmente começa o ano. Pessoas sérias, virtuosas, caráter ilibado, sendo demagógicas consigo mesmas logo no primeiro dia do ano. São os riscos de viver.

Quando se trata de comida o perigo aumenta. Viradas de ano são um convite à  promessas de emagrecimento, academia, dieta saudável. Prometer impulsivamente sair da zona de excessos e conforto do ano que passou, sonhando com uma mudança para os próximos 365 dias é um risco. Uma fatia de torta de chocolate com calda de morango é capaz de  abalar suas convicções?

Boas festas, prometa com moderação, se beber não dirija.

Em 2012 a gente conversa e confere.


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