segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Beleza Artificial

Era apenas mais um lançamento de moda. Estavam preparando a coleção de biquínis para o próximo verão. Durante a sessão de fotos, o diretor de criação da agencia publicitária sugeriu uma montagem onde o umbigo da top model sumisse. A idéia era fazer com que parecesse um ser alienígena com aparência exatamente igual à de uma mulher, porém sem umbigo. Abdome completamente liso.

Direção de arte, redação, produção se engajaram na campanha e em poucos dias o projeto estava na mesa do cliente para aprovação. A foto de uma mulher com corpo escultural, passeando em uma praia deserta,  vestindo apenas um biquíni e botas até o joelho, carregando em uma das mãos um micro aparelho que sugeria ser um computador de última geração e na outra uma coleira com um belo cão dálmata. Apenas uma frase abaixo da foto: “Mulheres evoluídas sabem o que vestir neste verão”.

O cliente achou a modelo maravilhosa, a foto belíssima, mas comentou que estava faltando o umbigo. Este era o objetivo da agência, chamar a atenção do público para algo totalmente inusitado, uma mulher sem umbigo. Depois de muitas horas de reunião o projeto foi aprovado na íntegra e trinta dias depois a campanha saiu para as ruas.

Investiram muito na divulgação: capa de revista, outdoor, comercial de TV. As vendas de biquíni superaram as expectativas e a campanha foi considerada um sucesso. Até aqui nenhuma novidade, o dia a dia das agências publicitárias é assim mesmo. Criar campanhas. Algumas com retumbante sucesso, outras atingindo os objetivos, e outras mais fracassando. Faz parte do negócio.

O que ninguém esperava é que uma famosa atriz de cinema norte americano tivesse assistido o comercial, adorado o visual do abdome sem umbigo e realizado uma cirurgia para conseguir aquele tipo de corpo. Não demorou muito para ser contratada como garota propaganda de uma rede de academias de ginástica. O efeito “abdome liso”  era algo muito diferente do que as pessoas estavam acostumadas a ver, e acabou trazendo um grande retorno de público para treinar na academia.

A novidade agradou. Um desfile de lingerie na Semana da Moda em Paris apresentou todas as modelos sem umbigo. A arte ficou por conta de um maquiador muito esperto que conseguiu disfarçar aquele orifício com algodão e produtos especiais.

Umbigos foram desaparecendo em efeito cascata. Durante o show, uma pop star  levantou a blusa e mostrou seu abdome liso, dizendo que umbigo era coisa de mulheres do século passado. Mulheres evoluídas não tinham mais umbigo, um “buraco” que não servia para nada a não ser acumular sujeira.

O efeito desta declaração foi bombástico. Desenvolveu uma epidemia de mulheres sem umbigo. Anúncios em jornais e revistas oferecendo cirurgias se multiplicaram. No inicio a técnica ainda não estava bem desenvolvida e uma pequena cicatriz marcava o abdome. Em poucos meses, videolaparoscópios resolveram este “problema”, não deixando mais vestígios.

Interessante notar que só mulheres se interessaram por este tipo de cirurgia, talvez por influência daquele primeiro comercial que falava em “mulheres evoluídas”, mas provavelmente os homens ficaram retraídos, por comportarem-se conforme declaração de um renomado estilista, que colocou o umbigo como um diferencial moderno entre homens e mulheres.

Seja como for, virou moda mulher não ter umbigo. Pior do que isto, virou padrão de beleza. Quem ainda tinha umbigo, preferia mantê-lo escondido para não ser alvo de comentários e fofocas. Mulheres com umbigo passaram a sentir-se infelizes, pois seus corpos estavam em desalinho com os novos padrões de perfeição.  

 Poderíamos utilizar o exemplo das tatuagens, piercings, próteses de silicone, lipoaspiração, plásticas faciais, cabelos alisados artificialmente... A história do umbigo foi apenas uma metáfora para sensibilizar médicos, pacientes e clinicas sobre a possibilidade de intervenções estéticas criarem um novo padrão de beleza, passando a imagem do corpo modificado a ser vista como a condição de normalidade e levando os demais a uma condição de anomalia, com o sofrimento psíquico daí decorrente.

Na medida em que famosos e bem sucedidos passam a habitar os meios de comunicação com novos recortes e preenchimentos corporais, cria-se a demanda, pois os agora disformes e destoantes têm sua auto-estima rebaixada e necessitam fazer alguma intervenção para adaptarem-se aos novos padrões da sociedade.

Quem está habilitado a estabelecer e lançar padrões de beleza? Quando uma flacidez, dobra ou ruga deixam de ser considerados sinais de envelhecimento e se transformam em “doenças estéticas”? Qual o tamanho e forma de uma mama normal? Até onde vamos esticar a pele para compensar achatamentos na auto-estima? Estamos medicalizando nossa imagem corporal, criando belezas artificiais e reforçando o significado da aparência.  

Somos o segundo pais do mundo em número de cirurgias plásticas, com cerca de 1700 procedimentos diários, e ao mesmo tempo detemos o recorde de filas de espera por atendimentos e cirurgias através do Sistema Único de Saúde. Definitivamente, vivemos em um país de contrastes, onde a superficialidade e as aparências maquiam os verdadeiros problemas da sociedade. Isto nos torna mais bonitos? Isto nos deixa mais saudáveis?



Um comentário:

  1. "Até onde vamos esticar a pele para compensar achatamentos na auto-estima?"

    Mais não é preciso dizer, meu caro amigo.
    Muito bom!

    beijo.

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