quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Auto-ajuda - Indicações e Efeitos Colaterais

Auto-ajuda funciona mais ou menos assim: ou você ama ou odeia. De um lado os que mantêm na cabeceira pilhas de livros de auto-ajuda, de outro os céticos, crucificando sua leitura e as considerando obras de menor valor.  Entre esses, os enrustidos, que lêem, mas não assumem.

Apesar da discriminação, preconceituosa ou realista, o fato é que a cada ano mais de 3,5 milhões de livros de auto-ajuda são colocados no mercado. Além da explosão de vendas, surgiram “gurus” da auto-ajuda, lotando auditórios com suas palestras e participando de vários programas na mídia.

Será que temos mais problemas que nossas bisavós e nos tornamos mais dependentes dos ensinamentos da auto-ajuda? Provavelmente não, nossas expectativas é que se tornaram irrealistas e procuramos desesperadamente atalhos para alcançá-las.

Criamos uma sociedade onde temos que matar um leão por dia. Queremos a ascensão cultural, social e financeira. Precisamos ser perfeitos, bem sucedidos no trabalho, na família, nos esportes, na cama. Temos que ser os melhores, corpos sarados, sempre jovens, felizes, deixando bem claro para todos, que o fracasso mora ao lado.

Escondemos nossos medos, imperfeições e vulnerabilidades. Não pedimos ajuda para ninguém, pois não queremos que suspeitem de nossas fraquezas. A pressão, o estresse e a sobrecarga do dia a dia funcionam como uma esteira rolante, empurrando-nos continuamente para frente, sem que tenhamos tempo de avaliar o bom senso nos relacionamentos. Muitas vezes perdemos o rumo.

Num país onde a qualidade de ensino nem sempre é das melhores, uma parcela das pessoas encontrou nos livros de auto-ajuda uma alternativa dissimulada de preencher suas lacunas de formação e dúvidas existenciais.  

Com uma linguagem fácil e acessível, o gênero da auto-ajuda fundamenta-se em aplicar princípios psicológicos cientificamente validados em situações cotidianas. Teorias complexas são simplificadas, colocadas em forma de metáforas, histórias de vida e até mesmo fórmulas para alcançar objetivos e sonhos individuais. Ensina-se a emagrecer, melhorar condicionamento físico, aumentar saldo bancário, desenvolver carreiras, relacionar-se com Deus, aprimorar vida sexual, afastar medos...

Qual o problema de um cidadão comprar um livro para auto ajudar-se? Carlos vai passear no shopping. Olha as vitrines e de repente um livro de capa colorida, intitulado “Parabéns a Você”, chama sua atenção. Fica curioso, entra na livraria, folheia algumas páginas, interessa-se pelo assunto.  Felicidade e ética são temas que lhe agradam. Quando se dá conta que o livro está na secção de auto-ajuda, coloca-o novamente na prateleira e desiste da leitura. O que pode haver de tão perigoso ou maléfico em um livro de auto-ajuda?

 Sócrates e Platão já praticavam auto-ajuda ao discutirem o que era uma existência feliz. Como em todos os gêneros literários, existem bons e maus autores, com propostas e estilos diferentes. Aproveitando a carência cultural e emocional, a auto-ajuda transformou-se em uma indústria milionária, onde “gurus” de toda a espécie lançam teorias e afirmações nem sempre comprovadas cientificamente apresentando soluções fáceis para problemas pessoais complicados.

Como os livros são dirigidos para grupos de pessoas com problemas semelhantes, as soluções são sempre generalistas, superficiais, muitas vezes confundindo os leitores ao invés de proporcionar-lhes conforto.  Outra grande critica é o oferecimento de fórmulas para atingir metas bastando acreditar apenas em si mesmo. Riqueza ou saúde, por exemplo, dependem de muitas variáveis, e se o leitor não atingir o objetivo proposto, pode relacionar o fracasso com sua incapacidade, tornando-se infeliz.

Alguns dos danos causados por esse tipo de leitura acontecem também pelo fato de que esses livros, por sua linguagem simples e direta, são lidos rapidamente ou sequer lidos, ficando os apressados apenas com os chavões da capa ou abertura dos capítulos. Para alguns isto já é suficiente, pois provoca um reforço positivo  nas crenças já existentes.

Talvez a principal oposição ao discurso da auto-ajuda resida nas técnicas de encorajamento para um desenvolvimento pessoal e superficial, priorizando um narcisismo exacerbado em detrimento de movimentos mais aprofundados para dentro de si mesmo, ou rumo a uma integração mais saudável com o meio social.

Enquanto a leitura da auto-ajuda é questionável, o processo de escrever indiscutivelmente é uma forma de auto-ajuda. Antes das palavras se juntarem para formar um livro, mil dúvidas povoam a cabeça do autor, que ao utilizar a escrita como ferramenta, sistematiza as idéias e progride com o pensamento. Ao escrever, muitos autores beneficiam-se aprendendo mais que ensinando, porém uma obra literária obrigatoriamente só se completa, quando é lida, interpretada e entendida pelo leitor.


Por isto mesmo, quando escrevo, procuro não passar fórmulas ou sugestões diretas do tipo “Antes de comprar um livro de auto-ajuda, analise bem o autor, as referências bibliográficas e as evidências científicas” ou “Livros de auto-ajuda devem ser vistos com muito critério”. Considero cada leitor uma fonte única de subjetividades. Coloco minha opinião, prós e contras de determinado assunto e deixo os leitores chegarem a suas próprias conclusões. Ainda assim, sou considerado um escritor de auto-ajuda. Tudo bem.

Ficção, não ficção, auto-ajuda, esoterismo, histórias em quadrinhos, revista de fofocas...qualquer gênero literário pode ser benéfico ou danoso. Mais importante que julgar o que as pessoas estão lendo, seria a criação de um hábito da leitura. Quando se fala em cultura, não existe o certo e o errado, o importante são as conseqüências.

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