domingo, 26 de agosto de 2007

VOCÊ JÁ TEVE VONTADE DE CHUTAR O BALDE?

“Ao aprender a pensar, quase me esqueci de sentir”


Durante a noite não dormiu direito, estudando e pensando as tarefas que teria por realizar no dia seguinte. Acordou cedo, tomou um café bebido e saiu para o trabalho. No caminho, um engarrafamento de trânsito, pedintes nas esquinas e falta de vagas no estacionamento. É necessária uma ligação ao celular avisando do atraso involuntário. A secretária comunica já está sendo aguardando e as pessoas estão ansiosas.
Ao descer do carro percebe que esqueceu de trazer uma pasta com documentos e também de beijar sua esposa e filhos. Não lembra se fechou ou não a porta da garagem. Inicia-se a reunião e seu pensamento está no cliente da tarde que deve assinar um contrato interessante. O telefone celular toca avisando que o cliente da tarde precisa antecipar a reunião. O colega de trabalho pede uma ajuda em seus relatórios. Prometeu ao filho busca-lo na escola e leva-lo ao futebol.
As cenas acima podem até parecer uma novela, e poderiam se estender infinitamente, mas sabe quem é o personagem principal desta história? VOCÊ!
As situações procuram demonstrar episódios imaginários da vida de um trabalhador na busca por qualificação profissional, bons salários, reconhecimento e uma carreira de sucesso, e, de alguma maneira, você pode ter se identificado.

Sessenta a oitenta horas de jornada semanal, plantões no final de semana, trabalho noturno, estudos, viagem para congressos, muitas noites dormidas ou mal dormidas em hotéis, hospitais. Alguma semelhança com sua rotina?
Esta rotina de trabalho sob pressão, com exigências cada vez maiores pode se estender por muitos anos e ser percebida como um enorme prazer, um verdadeiro barato: a vida moderna!
Nos últimos dez ou quinze anos, principalmente nas grandes cidades, a vida tornou-se mais rápida, agitada e perigosa. Sem que tenhamos consciência, nosso cérebro percebe riscos potenciais e põe o corpo em estado de alerta em frações de segundo. Este mecanismo de proteção filogenético (estresse) foi desenvolvido para que quando nos defrontássemos com um urso enorme ou um assaltante na esquina , tivéssemos forças para enfrenta-los ou fugir, porém, este “estado de alerta” esta funcionando da mesma maneira quando o chefe, o colega, o governo, o trânsito, a família nos colocam sob pressão.
A supra-renal libera hormônios, o coração acelera, a pressão arterial sobe, as pupilas dilatam, os músculos se contraem; tudo para auxiliar o ser humano a enfrentar situações de perigo. Se o estresse perdurar por semanas, meses ou anos, esta carga hormonal em permanente atividade na corrente sanguínea deixará marcas em quase todos os órgãos do corpo humano. Há tempos a ciência sabe que a liberação continuada de cortisol debilita o sistema imunológico, deixando o organismo mais sujeito a infecções. Em alguns casos, o estresse prolongado repercute apenas na psique e em outros, atinge também o físico.
Poderíamos definir estresse como uma resposta adaptativa não específica do organismo a qualquer mudança, demanda, desafio ou trauma. Esta resposta visa manter o equilíbrio, a sobrevivência.
Um quadro mais grave e que poderia ser encarado como o clímax do estresse ou o estado mais depressivo do estresse é a “Síndrome do Esgotamento Profissional”, ou burnout. Do inglês “to burn out”, que significa queima por completo, consumir-se.
Costuma ter predileção por profissionais que mantêm uma relação constante e direta com outras pessoas e de grande relevância para o usuário. Profissionais liberais e assalariados que iniciam suas carreiras cheios de sonhos e expectativas, empenhando-se ao máximo na busca pelo sucesso e de repente,as coisas deixam de ter importância e qualquer esforço passa a parecer inútil. Atitudes e condutas negativas ou cínicas em relação aos usuários, clientes , organização e trabalho são freqüentes.
Ao mesmo tempo, desaparece o interesse por outras pessoas, os contatos sociais vão se restringindo ao mínimo necessário. Cedo ou tarde, a capacidade de desempenho começa a se reduzir. Há falta de concentração, a memória é prejudicada, e não surgem mais idéias criativas. Neste ponto, a constatação de que não se está trabalhando direito redunda em uma pressão interna ainda maior, tendo início um ciclo vicioso.

Alguns autores diferenciam o burnout do estresse pelo fato do último ser um esgotamento pessoal com interferência na vida pessoal do indivíduo e não necessariamente na sua relação com o trabalho, ao passo que o burnout seria um quadro clínico resultante da má adaptação do homem ao seu trabalho caracterizado pelo esgotamento físico, psíquico e emocional com reflexos também no trabalho.

Infelizmente , os afetados são muitas vezes os últimos a perceber sua situação crítica. Em determinado momento, a partida de futebol é cancelada, a viagem é adiada. No trabalho, a dor de cabeça o impede de realizar suas tarefas e não são poucos os que fracassam por subestimar a gravidade da situação.
Mais de 15% dos pacientes com distúrbios de caráter depressivo, apresentam na realidade, a síndrome do esgotamento profissional. A síndrome do esgotamento profissional é de difícil diagnóstico, pois se manifesta por mais de cento e trinta sintomas já descritos, variando desde manifestações de gastrite, úlcera péptica, colite, cefaléia, perda de peso, alterações menstruais, aborto espontâneo, diarréia, alergias, hipertensão arterial, taquiarritmias, dores musculares, depressão do sistema auto-imune, aceleração do envelhecimento, memória afetada, distúrbios do sono, desorientação, irritabilidade, absenteísmo profissional, até manifestações tais como aumento do consumo de café, álcool e drogas, depressão e tentativa de suicídio.
Ninguém se esgota da noite para o dia. Ao contrário, as baterias falham tão devagar que nem sequer registram as sutis alterações. As pressões enfrentadas diariamente são como gotas de água enchendo um copo.
Aquela cefaléia, as tonturas no final de semana, azia eventualmente, os lapsos de memória, são encarados superficialmente ou como por efeitos de vapores exalados, da má alimentação, etc. O relacionamento desgastado com colegas, a falta de ânimo para programações com a família e amigos são traduzidos por excesso de trabalho, que será compensado com umas férias mais adiante.
Em um determinado momento, ocorre uma reviravolta, o copo transborda. O sistema colapsa. O sentimento de que por mais elevado que seja o seu desempenho profissional, não será reconhecido a contento, resulta numa crise de insatisfação, e , todos os princípios e qualidades pessoais que levaram as pessoas adiante durante tantos anos, de repente se voltam contra elas, não lhes permitindo mais sair da roda viva do estresse.

Quanto antes se procura ajuda especializada melhor, pois o tempo influi no prognóstico do tratamento, que é demorado e trabalhoso. É preciso aprender que existem outras fontes de satisfação capazes de nutrir a auto-estima. Deve-se tentar recuperar a vida sob outros pontos de apoio.
Um investimento na formação e capacitação profissional, estabelecendo prioridades, valores e metas, com uma visão realista da situação profissional e limitações pessoais torna-se essencial, porém deve-se estar alerta para perceber indicações que passarão a surgir neste novo caminho. Ações direcionadas no sentido da prevenção do excesso de horas extras, melhora das condições físicas e sociais de trabalho, participação em programas de combate ao estresse também fazem parte da estratégia individual de tratamento.
Atenção especial deve ser dada à saúde. Dois terços das doenças do sistema cardiovascular e quatro quintos das patologias cancerígenas podem ser prevenidas. Dieta adequada, atividade física, higiene, vacinas, horas de repouso e de sono, entretenimento, tempo dedicado aos amigos e família não podem ser relegados a um segundo plano.. Não fumar, uso de cinto de segurança no automóvel, visitas à médicos e dentistas podem fazer a diferença para uma vida mais longa e saudável.
O pedido de auxílio quando necessário, nos vários assuntos pessoais e profissionais, através de uma comunicação aberta, faz com que sejam compartilhados pensamentos e sentimentos. Somente sendo mais flexível, de corpo e alma, consegue-se lidar bem com o novo; seja um novo paradigma, um novo membro na equipe ou uma novidade tecnológica.
Celulares, internet, pagers, mantém as pessoas conectadas e acessíveis 24 horas por dia e, desta maneira, terminaram com a linha divisória entre trabalho, casa e férias.
Novos passatempos, encontros com amigos, música, natureza, dança, esportes com preferência para os competitivos que mobilizam forças internas, tomada de decisões e riscos, podem funcionar como um laboratório para uma adaptação a uma nova realidade.

O ideal seria a prevenção pela informação. Se soubermos nos proteger das conseqüências, adotaremos o mais cedo possível uma postura que dê à saúde e ao bem estar psíquico no mínimo, a mesma importância atribuída à ascensão na carreira profissional.

Algumas reflexões se impõem: Aonde você quer chegar?
Quais são seus valores genuínos?
Qualificação profissional, bons salários, reconhecimento e uma carreira de sucesso?
“O verdadeiro sucesso é medido por aquilo que se tem de renunciar para obtê-lo”.
Você está renunciando à família, amigos, lazer, estudos, amor próprio em troca de quais valores?
A vida pode mudar num instante. O futuro pode ser alterado num piscar de olhos. Nenhum trabalho, por mais gratificante que seja, compensa perder umas férias, romper um casamento ou passar um dia festivo longe da família.
A vida vai passando rapidamente. Quando se vê já é sexta-feira, já é Natal, já estamos em outro ano. Mas ao invés de viver, sobrevivemos, porque não sabemos fazer outra coisa. Perdemos dias, às vezes anos. Nos calamos quando deveríamos falar. Falamos demais quando deveríamos ficar em silêncio. Reclamamos do que não temos ou achamos que não temos o suficiente. Cobramos dos outros, da vida, de nós mesmos. Costumamos comparar nossas vidas com as daqueles que possuem mais que a gente.
Estamos nos consumindo.
Até um determinado ponto, o sucesso depende de você. Depois, depende de como você lida com ele.
Pense bem nos seus valores verdadeiros, e, se for necessário, recomece de uma maneira diferente enquanto é tempo.
Acredite em você, dê uma nova chance a si mesmo.
Fique pronto para a vida.
Leia mais no meu site: www.ildomeyer.com.br

Um comentário:

  1. Tu está muito filosófico, mas não deixa de estar certo.pb

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